Agro articula união para retomar protagonismo e espaço estratégico
Publicado em 25/02/2026 10h25

Agro articula união para retomar protagonismo e espaço estratégico

Durante a 36ª Abertura da Colheita do Arroz, lideranças do setor articularam uma união estratégica para retomar o protagonismo do agro na inovação.
Por: Redação

O agronegócio brasileiro vive um momento de profunda autocrítica e reorganização estratégica. No primeiro dia da 36ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz e Grãos em Terras Baixas, em Capão do Leão (RS), o debate "Agro Unido: onde a inovação encontra a oportunidade" reuniu expoentes do poder público e da iniciativa privada. O consenso entre os painelistas é claro: o setor precisa retomar espaços perdidos em pautas decisivas para garantir o desenvolvimento nas próximas décadas.

A mediação de Paulo Hermann, diretor da PH Advisory Group, conduziu reflexões sobre como o setor tem se comportado diante de temas como a questão fundiária, transgenia e, mais recentemente, o meio ambiente. A análise é de que o agro permitiu que outros atores ocupassem esses espaços de fala, resultando em uma percepção muitas vezes distorcida da realidade produtiva nacional, especialmente no ambiente interno.

Domingos Velho Lopes, presidente do Sistema Farsul, foi enfático ao apontar que o reconhecimento do agro brasileiro no exterior é elevado, mas que há uma dificuldade latente em transformar esse prestígio em um ativo estratégico dentro do Brasil. Para ele, a união das entidades é o caminho para fortalecer o orgulho das próximas gerações e evitar que o setor perca relevância também na discussão sobre inteligência artificial.

Diversificação como estratégia de renda

A estabilidade econômica do produtor rural passa, obrigatoriamente, pela diversificação de culturas. Rodrigo Alarcon Pardo, da Bosques Brasil CMPC, destacou que a experiência centenária do grupo chileno no Brasil reforça a necessidade de ampliar o portfólio produtivo. Integrar a silvicultura e outras frentes ajuda a mitigar riscos climáticos e flutuações de mercado, garantindo maior resiliência financeira à propriedade.

Nessa mesma linha, Luiz Augusto Dumoncel, vice-presidente da 3tentos, detalhou como a expansão de culturas como o milho e a canola tem transformado paisagens produtivas no Rio Grande do Sul e em Mato Grosso. O avanço da cadeia do etanol de milho e o crescimento de 50% na produção de canola em solo gaúcho são exemplos práticos de como novas oportunidades de mercado geram desenvolvimento regional acelerado.

"Nós deixamos o espaço ser ocupado em questões fundiárias e ambientais; agora não podemos perder o protagonismo na inteligência artificial", alertou Domingos Velho Lopes.

Cidade do Agro: um Hub para o Futuro

Um dos anúncios mais impactantes do evento foi o projeto “Cidade do Agro”, detalhado por Lauro Soares Ribeiro, diretor da Agropecuária Canoa Mirim. Trata-se de uma estrutura de aproximadamente 200 hectares, situada entre Capão do Leão e Pelotas, desenhada para ser um ambiente permanente de educação, pesquisa e geração de negócios. O complexo funcionará como um parque tecnológico voltado à integração total entre produção e conhecimento.

A proposta da Cidade do Agro inclui:

  • Hub de Inovação: Espaço para startups e desenvolvimento de agrotechs.

  • Instituto e Laboratórios: Foco em pesquisa aplicada e qualificação técnica.

  • Áreas Demonstrativas: Vitrines tecnológicas ativas durante todo o ano.

  • Integração Urbana: Museu e centro de eventos para aproximar a sociedade do campo.

O projeto busca impulsionar a "Metade Sul" do estado, região que historicamente enfrenta desafios de desenvolvimento em comparação ao norte gaúcho. Ao fomentar a diversificação — incluindo hortifruti, flores e silvicultura —, a iniciativa pretende equilibrar o mercado do arroz e criar um ecossistema econômico mais dinâmico e menos dependente de monoculturas.

O papel da qualificação e do Estado

Edivilson Brum, secretário da Agricultura do RS, ressaltou que a evolução tecnológica observada nas lavouras de arroz nas últimas duas décadas é fruto de uma rede de apoio que envolve universidades, Senar e Emater. A qualificação técnica é apontada como a base para que o produtor consiga absorver as inovações discutidas na Arena da Inovação e transformá-las em rentabilidade dentro da porteira.

Desafio Identificado Ação Estratégica Proposta
Perda de espaço em pautas União de entidades para comunicação estratégica.
Instabilidade de renda Diversificação de culturas (canola, milho, silvicultura).
Desconexão com a cidade Criação de espaços como a "Cidade do Agro".
Velocidade tecnológica Fomento à mentalidade de inovação e "tentativa".

Ao encerrar o painel, Paulo Hermann enfatizou que a mudança de mentalidade é o insumo mais escasso e necessário no momento. Para ele, "respirar o ar do futuro" significa não ter medo de testar novas tecnologias e modelos de gestão. O agro brasileiro já provou sua eficiência produtiva; o desafio agora é provar sua capacidade de liderar o debate institucional e tecnológico global.

A 36ª Abertura da Colheita do Arroz, realizada pela Federarroz com correalização da Embrapa e Senar, segue conectando campo e mercado. O evento reafirma que o futuro do setor não será construído isoladamente, mas através de um ecossistema que integre pequenos e grandes produtores em torno de uma agenda comum de inovação e sustentabilidade.

As diretrizes traçadas em Capão do Leão servirão de base para as políticas setoriais que serão levadas aos fóruns nacionais de decisão ao longo de 2026.