O mercado internacional de commodities agrícolas vive uma segunda-feira de forte volatilidade e valorização. A escalada das tensões geopolíticas envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irã redesenhou as expectativas de oferta e demanda nas principais bolsas do mundo. Segundo análise da consultoria TF Agroeconômica, o temor de uma interrupção nos fluxos comerciais e a alta nos custos de energia fizeram com que soja, milho e trigo operassem com ganhos expressivos na Bolsa de Chicago (CBOT).
O foco das atenções está voltado para o Estreito de Ormuz, uma rota estratégica por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial e volumes significativos de produtos agrícolas. O fechamento ou a insegurança nesta passagem impacta diretamente o frete marítimo e os custos de seguro, encarecendo a logística global. Para o Brasil, grande exportador de grãos, o cenário traz uma valorização nominal dos produtos, mas também um alerta sobre o encarecimento dos insumos e do transporte.
O trigo é o grão que mais sente as ondas de choque dos conflitos territoriais. Além da crise no Oriente Médio, os confrontos persistentes na região do Mar Negro e novos focos de tensão no Paquistão e Afeganistão limitam a oferta global. Os contratos para maio de 2026 na CBOT atingiram US$ 583,75, um avanço de 6,50 pontos. Para o final do ano, as projeções são ainda mais elevadas, com dezembro de 2026 cotado a US$ 622,00.
No mercado interno brasileiro, o comportamento é distinto entre as praças. No Paraná, o preço físico registrou R$ 1.182,38, acompanhando a tendência internacional. Já no Rio Grande do Sul, houve um recuo para R$ 1.095,19, refletindo dinâmicas locais de estoque. A valorização do dólar frente ao euro é um fator monitorado de perto, pois pode retirar a competitividade do trigo norte-americano, favorecendo as origens do Hemisfério Sul.
A soja registrou uma das maiores altas do dia. O contrato para março de 2026 disparou 19,25 pontos, atingindo US$ 1.169,25. O movimento é uma resposta direta à valorização do petróleo. Como o óleo de soja é uma das principais matérias-primas para o biodiesel, ele costuma acompanhar o gráfico da energia fóssil. Com o barril mais caro devido à crise iraniana, os derivados da oleaginosa tornam-se automaticamente mais valorizados.
"A escalada do conflito no Oriente Médio e o risco no Estreito de Ormuz afetam tanto a oferta quanto a demanda global de grãos", destaca a análise da TF Agroeconômica.
Enquanto Chicago sobe pela geopolítica, no Brasil o ritmo de colheita ajuda a equilibrar a oferta. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que a colheita da soja já alcançou 41,7% da área total, superando a média dos últimos cinco anos. Essa entrada rápida do grão no mercado físico nacional pode amortecer parte da alta internacional para os processadores domésticos, mas mantém o produtor atento para as oportunidades de venda na exportação.
No milho, o cenário segue o otimismo das demais commodities. O contrato de março de 2026 avançou para US$ 438,50. Assim como na soja, a atratividade do milho cresce com o petróleo alto, já que ele é a base para a produção de etanol em larga escala tanto nos EUA quanto no Brasil. O cenário geopolítico reforça a tese de que os biocombustíveis ganharão ainda mais espaço na matriz energética para reduzir a dependência de regiões em conflito.
| Produto (CBOT) | Contrato (2026) | Cotação Atual (US$) | Impacto Geopolítico |
| Soja | Março | 1.169,25 | Alta do petróleo e biodiesel |
| Trigo | Maio | 583,75 | Tensão no Mar Negro e Oriente Médio |
| Milho | Março | 438,50 | Demanda por etanol e energia |
Em solo brasileiro, o plantio da safrinha (segunda safra) está em estágio avançado, atingindo 64,9% da área prevista. A rapidez no plantio é fundamental para que o milho complete seu ciclo antes do período de seca e geadas. Paralelamente, a primeira colheita nacional de milho já chega a 24,9% da área total, garantindo o abastecimento das granjas e indústrias de proteína animal no curto prazo.
A volatilidade atual exige do produtor brasileiro uma gestão de risco rigorosa. Embora a alta em Chicago seja um convite para o fechamento de contratos de exportação, a valorização do dólar também encarece os fertilizantes e defensivos, muitos deles importados via Estreito de Ormuz ou regiões vizinhas. A margem de lucro, portanto, depende do equilíbrio entre vender o grão na alta e travar o custo de produção antes de novos reajustes.
O monitoramento semanal da Secex e das consultorias privadas será vital para entender se os embarques brasileiros sofrerão atrasos logísticos devido à crise. O mercado agora aguarda o posicionamento de grandes compradores, como a China, diante da instabilidade nas rotas do Oriente Médio, o que pode definir o tom das negociações para a segunda quinzena de março.
A colheita nacional de soja deve ultrapassar 50% da área até a próxima semana se o clima permitir.