
O paraquat foi desenvolvido há mais de 60 anos pela Imperial Chemical Industries - Foto: Divulgação
O mercado global de defensivos agrícolas atravessa uma reorganização estratégica profunda. O avanço das moléculas genéricas e a pressão por tecnologias com menor impacto ambiental têm levado as gigantes do setor a reavaliar portfólios históricos. Nesse contexto, a Syngenta comunicou que interromperá definitivamente a produção mundial do ingrediente ativo paraquat até o final de junho deste ano.
A decisão marca o fim de um ciclo para um dos herbicidas mais conhecidos da agricultura mundial. Desenvolvido originalmente pela Imperial Chemical Industries (ICI) na década de 1960, o paraquat tornou-se um pilar no controle de plantas daninhas, especialmente sob a marca Gramoxone. Contudo, a molécula hoje representa menos de 1% das vendas globais do grupo, perdendo espaço para soluções mais modernas e enfrentando restrições severas de uso em diversos mercados.
No Brasil, o paraquat já é uma página virada desde setembro de 2020, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu sua comercialização e uso devido a riscos à saúde dos aplicadores. A decisão atual da companhia, portanto, reflete uma tendência global de descontinuidade de ativos que já não encontram viabilidade econômica ou aceitação regulatória nos principais polos produtores.
O processo de encerramento está concentrado na unidade de Huddersfield, no Reino Unido. Este complexo abriga a única planta global da Syngenta dedicada exclusivamente à produção do ingrediente ativo do herbicida. Além desta linha principal, uma unidade menor de múltiplos produtos também terá as atividades encerradas como parte do programa de revisão de ativos da multinacional.
O Reino Unido, que concentra mais de dois mil funcionários da empresa em seis unidades, continuará sendo um hub importante para a companhia. No entanto, o foco será redirecionado para a pesquisa e desenvolvimento de soluções agrícolas de última geração. O complexo de Huddersfield passará por avaliações para receber novos investimentos voltados à produção de defensivos com maior valor agregado e perfis toxicológicos mais brandos.
"A decisão ocorre em meio ao avanço de fabricantes de versões genéricas e ao direcionamento de investimentos para tecnologias mais modernas", informou a companhia em comunicado.
O encerramento da produção pela Syngenta não significa o desaparecimento imediato da molécula nos países onde ela ainda é permitida, já que fabricantes de genéricos (especialmente na Ásia) continuam a operar. Entretanto, a saída da principal detentora da tecnologia original sinaliza que o futuro do controle de plantas daninhas está migrando para novos mecanismos de ação.
A estratégia da empresa agora foca em herbicidas seletivos e biológicos, que atendem às exigências de sustentabilidade das cadeias de suprimento globais. A transição tecnológica é impulsionada pela necessidade de combater a resistência de ervas daninhas, um problema crescente em sistemas de plantio direto onde o paraquat foi, por décadas, a principal ferramenta de dessecação.
| Fator de Mudança | Impacto no Setor |
| Avanço de Genéricos | Redução da margem de lucro para a detentora da tecnologia original. |
| Restrições Regulatórias | Proibição em mercados chave, como o Brasil e a União Europeia. |
| Inovação em P&D | Foco em moléculas mais seguras e com menor dosagem por hectare. |
| Revisão de Portfólio | Descontinuidade de produtos que representam <1% das vendas globais. |
O paraquat foi fundamental para a viabilização do sistema de Plantio Direto, permitindo o controle rápido da vegetação sem o revolvimento do solo. Sua característica de contato e dessecação acelerada ajudou o Brasil a se tornar uma potência agrícola. No entanto, a evolução da ciência e o surgimento de novas opções de pré-emergentes e herbicidas sistêmicos oferecem hoje alternativas eficazes e mais seguras para o operador.
Para os produtores brasileiros, o anúncio reforça a necessidade de buscar assistência técnica para a rotação de moléculas. A saída definitiva da Syngenta da produção global deve reduzir a oferta mundial e, consequentemente, elevar o preço do produto nos poucos mercados onde ainda é comercializado, acelerando a substituição por novas tecnologias de manejo integrado de pragas e plantas invasoras.
O encerramento total das operações em Huddersfield está previsto para o dia 30 de junho de 2026.