
Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente mapearam 14 isolados de fungos do gênero Trichoderma em solos da Bahia e do Piauí. Coletados tanto em vegetação nativa da Caatinga quanto em lavouras irrigadas de melão, os micro-organismos demonstraram alta capacidade de antagonismo contra patógenos agrícolas e resistência a temperaturas de até 40 °C.
A oscilação térmica e o calor intenso do Nordeste costumam reduzir a eficiência dos defensivos biológicos comerciais tradicionais, desenvolvidos para climas mais ameno. A descoberta abre caminho para bioinsumos adaptados às exigências climáticas locais.
Destaque: Isolados de áreas agrícolas irrigadas apresentaram maior tolerância ao estresse térmico acima de 35 °C do que aqueles vindos de matas nativas.
A pesquisa catalogou cinco espécies: Trichoderma asperellum, Trichoderma asperelloides, Trichoderma koningiopsis, Trichoderma virens e Trichoderma spirale. A presença desses agentes variou conforme a fertilidade, a acidez e o teor de matéria orgânica do solo.
A expansão da fruticultura irrigada no semiárido intensifica a ocorrência de fungos de solo de difícil controle, como Fusarium, Macrophomina, Rhizoctonia e oomicetos do gênero Pythium. Esses organismos atacam o sistema radicular, provocando murcha vascular e perda de produtividade.
O estudo avaliou dois métodos de ação dos fungos nativos. No confronto direto, espécies como Trichoderma asperellum cresceram sobre Rhizoctonia solani e Macrophomina phaseolina, consumindo os patógenos por parasitismo.
Destaque: A emissão de compostos voláteis por fungos nativos reduziu em mais de 70% o desenvolvimento de patógenos como Fusarium solani.
Contra Pythium myriotylum e espécies de Fusarium, a inibição ocorreu pela liberação de substâncias voláteis no solo, dispensando o contato físico. A espécie Trichoderma koningiopsis obteve o desempenho mais regular em todos os testes efetuados.
A viabilidade comercial dos bioinsumos depende da capacidade de multiplicação em escala. Nos ensaios de fermentação sólida utilizando arroz parboilizado, os isolados de Trichoderma asperelloides e Trichoderma asperellum geraram mais de 1,4 bilhão de conídios por grama de substrato após dez dias.
Entretanto, as linhagens mais agressivas no combate direto aos patógenos registraram menor produção de esporos. Essa divergência demonstra que o direcionamento energético varia entre a capacidade reprodutiva e a agressividade ecológica.
A equipe científica prevê agora a realização de ensaios em campo com culturas de melão para avaliar a colonização radicular e validar a aplicação de consórcios microbianos na agricultura irrigada.