Fazendeiros acumulam soja e obrigam a Argentina a emitir dívida para se financiar
Publicado em 21/04/2015 22h31

Fazendeiros acumulam soja e obrigam a Argentina a emitir dívida para se financiar

Como a Argentina está atolada em um calote e atormentada por um déficit crescente, a safra recorde de soja do país não podia ter chegado em um melhor momento.
Por: Pablo González | Bloomberg

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Só tem um problema: os fazendeiros não querem deixar o governo pôr as mãos nela.

Os agricultores do país sul-americano, o maior produtor mundial da oleaginosa depois dos EUA e do Brasil, estão retendo, segundo estimativas, US$ 2 bilhões em soja, pois apostam que o vencedor da eleição presidencial em outubro desvalorize o peso argentino, impulsionando o valor das suas exportações.

Eles reduziram os embarques em 30% neste ano em relação ao mesmo período de 2014.

A medida está causando uma queda na receita fiscal obtida com a soja para seu menor valor em oito anos, obrigando o governo da presidente Cristina Kirchner a vender dívida no mercado local com yields de até 27% a fim de financiar uma brecha orçamentária que será a maior desde 2001.

A capacidade de obter financiamento da Argentina é restringida por tribunais dos EUA desde junho, quando o país não conseguiu chegar a um acordo com detentores de títulos não reestruturados e deu calote pela segunda vez em 12 anos.

"O governo não pode fazer a economia crescer porque não tem os dólares dos fazendeiros nem pode vender dívida em Nova York", disse Mariano Lamothe, economista-chefe da abeceb.com, em entrevista por telefone de Buenos Aires.

Yields dos bonds

O Tesouro emitiu 4,7 bilhões de pesos (US$ 530 milhões) em bonds na semana passada, entre eles notas com vencimento em março de 2016 e um yield de 27,06%.

Isto se deu menos de um mês depois da venda de 5 bilhões de pesos em dívida na que foi a primeira oferta em um ano. Como parte desse leilão, o banco emitiu notas a doze meses com um yield de 26,2%.

Na sua venda anterior de bonds em pesos, o Tesouro pagou um yield de 21,88% em setembro.

O peso quase não mudou nesta terça-feira, cotado a 8,8674 por dólar às 10h01 da manhã em Nova York. A moeda argentina caiu 4,3% nos últimos seis meses.

É provável que os fazendeiros continuem acumulando sua soja durante o resto do ano, o que privará o governo de dólares, disse Eduardo Hecker, ex-regulador de valores e atual diretor da consultoria DEL.

Eles também apostam que um governo novo reduza um imposto sobre as exportações de até 35 por cento, que segundo eles torna suas operações deficitárias, disse Hecker.

Os fazendeiros colheram apenas um terço da sua safra estimada em 58 milhões de toneladas métricas. É um grande problema, uma vez que os impostos sobre as exportações de soja sustentam cerca de um terço dos gastos do governo.

Brecha orçamentária

"Fica claro que os fazendeiros protelarão a maior parte das suas vendas", disse Hecker em entrevista por telefone de Buenos Aires. "Eles esperarão até a próxima administração para conseguirem uma melhor taxa de câmbio ou uma redução do imposto".

Hecker projeta que a insuficiência orçamentária da Argentina se amplie para 6% em 2015.

Os candidatos a presidente da oposição Mauricio Macri e Sergio Massa disseram que eles reduzirão os impostos sobre as exportações para promover os investimentos.

Ricardo Delgado Morales, porta-voz de Daniel Scioli, o candidato mais próximo ao governo de Cristina, não teve comentários para fazer imediatamente, disse ele em entrevista por telefone.

A tensão entre Cristina e o setor agrícola se remonta pelo menos a seu primeiro mandato. Em 2008, os fazendeiros lideraram protestos antigoverno durante meses, os quais acabaram forçando Cristina a abandonar seus planos de aumentar os impostos sobre as exportações.

"Os fazendeiros estão cansados de financiar um governo que não fez mais do que semear o ódio contra eles", disse Gabriel De Raedemaker, vice-presidente da Confederação Rural Argentina, em entrevista de Oliva, na província de Córdoba. "O nosso melhor investimento é esperar ventos de mudança".