Agronegócio gera novos “milionários” no Brasil, aponta estudo
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Publicado em 08/07/2015 13h17

Agronegócio gera novos “milionários” no Brasil, aponta estudo

Centro-Oeste se destaca na lista. Representantes dos produtores reagem com preocupação e cautela.
Por: Ariosto Mesquita

Por Ariosto Mesquita

Quem quer ser um milionário? A pergunta - que no Brasil batizou o filme “Slumdog Millionaire”, ganhador de oito estatuetas do Oscar em 2009 – poderia ser respondida com outra indagação: E quem não quer? No entanto, números divulgados este ano, referentes a estudo creditado a uma empresa instalada nos Estados Unidos, estão provocando certo mal estar, pontualmente, entre alguns atores da agropecuária nacional. Em linhas gerais, esses dados sugerem que têm muito produtor rural brasileiro enchendo os bolsos nos últimos anos. Invariavelmente, estas informações não estão sendo comentadas pelos segmentos da atividade rural. Avaliações, quando feitas, são carregadas de extrema cautela.

Confira alguns números: na primeira metade da atual década (de 2010 a 2014), o Mato Grosso e o Mato Grosso do Sul foram os estados de base econômica agropecuária que mais produziram “milionários” no Brasil. Respectivamente, 697 e 651 pessoas galgaram esta condição neste período. As duas potências agrícolas do Centro-Oeste só perderam para São Paulo, um estado de economia caracteristicamente mais industrial que, em números absolutos, registrou 1.013 novos indivíduos abastados.

Em aumento relativo, entretanto, o quadro é bem diferente. São Paulo obteve um crescimento de 1,59% no período (de 63.398 para 64.411 “milionários”) um desempenho que o coloca em 20º lugar entre os estados. O Mato Grosso aparece em 3º lugar, avançando 48,57% (de 1.435 para 2.132 pessoas). O Mato Grosso do Sul é o vice-campeão, com um salto de 53,75% (de 1.211 para 1.862 indivíduos). Os dois só perdem para Roraima, que produziu 67,85% a mais de “milionários”. No entanto o estado da Região Norte totaliza número ainda muito pequeno de novos endinheirados: pulou de 28 para 47 pessoas.

Quadro Ariosto Matéria

O estudo foi idealizado pela América Latina Bankers Association em parceria com instituições brasileiras e divulgada pelo Barings Investments, instituição financeira com sede nos Estados Unidos e escritórios no Brasil e na Suíça. Para isso foram utilizadas informações públicas disponibilizadas por grupos e organizações como Boston Consulting Group, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, The Economist, Capgemini, Knight Frank, Banco Central do Brasil, Receita Federal e NPG Group.

“Avaliamos o mercado brasileiro de indivíduos com grandes remunerações no período de março de 2014 a fevereiro de 2015. Foram aplicados ainda 400 questionários com 45 perguntas diretas”, conta o sócio e responsável do Barings para a América Latina, Emerson de Pieri. O estudo classifica como “milionários” as pessoas com renda anual a partir de US$ 240.000 e US$ 1.000.000 em ativos. Neste último caso, excetuam-se do cálculo o imóvel de moradia e dois veículos.

Portanto, estão fora desta classificação de endinheirados as pessoas com renda anual em reais abaixo de R$ 775.200 (entrada/salário mensal de R$ 64.600) e com ativos inferiores a R$ 3.230.000 mesmo que resida em um amplo e valorizado imóvel e tenha dois caros automóveis em seu nome. A conversão obedece ao valor de US$ 1 a R$ 3,23, considerada uma cotação média nos últimos meses.

Apesar de ter sido uma pesquisa ampla, genérica, sem o foco em uma ou outra atividade, de Pieri considera que o desempenho significativo dos dois estados do Centro-Oeste refletem os resultados financeiros gerados pelas atividades agrícolas e pecuárias, apesar de considerar extremamente difícil obter dados financeiros de quem atua nestes setores.

“Da pesquisa genérica segmentamos alguns nichos, dentre eles o agronegócio. No Brasil é muito complicado obter informações exclusivamente dos profissionais do campo. Nós desistimos de fazer isso em 2012 quando notamos que muitos produtores ‘omitiam’ dados financeiros para não serem listados como milionários. Estas omissões geravam distorções nos números e tivemos de abortar o projeto. O bom é que conseguimos um mapa muito interessante de pessoas físicas que hoje são nossos clientes”, garante de Pieri.

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Emerson de Pieri, sócio da Barings Investments para a América Latina. Foto divulgação

O Barings Investments, segundo ele, funciona como uma espécie de intermediador de serviços e soluções financeiras para atender a necessidade do produtor rural. Na lista de produtos estão financiamento de terras, sementes, insumos, aeronaves e maquinários, seguros de safra, exportação e importação, venda no mercado futuro (Chicago), serviços de transporte e aduaneiros. “Atualmente possuímos 58 clientes no Brasil, sendo 69% deles no Centro-Oeste”, revela.

As particularidades econômicas e de mercado favorecem, segundo ele, o enriquecimento no Centro-Oeste. “Sem o agronegócio, não teria acontecido esse “boom”. No Mato Grosso, principalmente, onde não há uma diversificação econômica, a agropecuária é a mola mestra de impulso da economia. Vale lembrar, que com os recursos gerados, criou-se uma segunda fonte de receita ao Estado, que são as grandes empresas ligadas ao fomento e implemento do setor (maquinários, insumos, sementes, etc.). Ao mesmo tempo, alavancou o comercio de produtos e de serviços. De acordo com o Governo do MT, o comércio por lá cresce exponencialmente desde 2003“, avalia.

Outros números da pesquisa que apontam para o enriquecimento no Centro-Oeste e destacam os profissionais do agronegócio estão nos dados de perfil dos “milionários” na região: 65% possuem curso superior completo: agronomia (43%), administração de empresas (31%) e veterinária (7%) são as principais formações. Do total, 21% possuem MBA, 18% estudaram fora do Brasil e 53,2% têm idade até 45 anos.

Ao contrário do que possa indicar, deter proporcionalmente o maior avanço em número de “milionários” no Brasil é, segundo de Pieri, altamente conceitual para o Centro-Oeste: “hoje, estados do Brasil Central, como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul possuem não só know-how como são exportadores de tecnologias de ponta para a produção agrícola, em grande parte devido a investimentos privados e astúcia e tenacidade de seus habitantes”.

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Ferronorte cruzando área rural de Chapadão do Sul, no Mato Grosso do Sul – economia essencialmente agrícola. Foto Ariosto Mesquita

Cautela e dúvidas

No Centro-Oeste os números do estudo apresentados pelo Barings Investments foram recebidos com preocupação e cautela por parte de algumas entidades representativas dos produtores rurais. Em Campo Grande, o diretor institucional da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul, Rogério Beretta, emitiu uma nota na qual diz temer que o estudo possa ser mal interpretado. Alega também não possuir dados mais concretos para avaliá-lo melhor.

“Este levantamento pode gerar interpretações errôneas e ainda colocar indevidamente os produtores rurais na classificação de milionários o que, para a maior parte da opinião pública, soa pejorativo”, avisa.

Beretta também questiona os parâmetros de remuneração utilizados para a classificação. “Uma renda anual de US$ 240 mil pode ser representada por um produtor rural que planta 250 ha de soja ou ainda por um pecuarista que abate 300 bois gordos/ano. Se considerarmos os ativos de US$ 1 milhão, o valor apresentado pode se referir a uma propriedade de aproximadamente 300 ha. A baixa rentabilidade das atividades não condiz com a chancela de agro milionários, ou seja, consideramos que essa classificação utilizada nos EUA não se aplica à realidade brasileira e muito menos ao setor rural”, avalia.

Já a Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso (Aprosoja MT) – que representa perto de 5.000 agricultores no Estado - foi mais concisa ao comentar sobre o estudo. Seu diretor técnico, Nery Ribas, alegou não ter conhecimento profundo do modelo, metodologia e formatação do estudo de forma a lhe permitir avaliar os resultados. “No meu entender temos poucos recursos e informações detalhadas dos perfis, uma vez que não condiz com a nossa realidade”, disse. A assessoria de imprensa da entidade completou via e-mail: “Nossos associados não se encaixam no perfil de milionários. Eles são médios produtores em Mato Grosso e pessoas físicas”. Já a assessoria da Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso (Famato) enviou mensagem alegando não possuir “ninguém para repercutir o assunto”.

A cautela demonstrada pela representação dos produtores rurais em relação ao estudo divulgado no Brasil pelo Barings é compartilhada pelo vice-presidente de Estudos do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS) e professor titular da Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (FCA/UNESP Botucatu), Ciro Antonio Rosolem. Para ele, uma eventual “bolha de milionários” atribuída ao agronegócio possivelmente se encontra “fora da porteira”.

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Ciro Antonio Rosolem, Vice-Presidente de Estudos do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS). Foto Divulgação / Alfapress

“O que se nota, principalmente no Mato Grosso e Bahia, é uma concentração da produção em grandes propriedades-empresas. Assim, fica difícil atribuir este crescimento à fase produtiva de campo. Há um grande capital e grandes somas investidas por poucas pessoas/empresas”. Rosolem considera “perigoso” atribuir todo este enriquecimento ao setor e aproveita para fazer um questionamento: “caso o agronegócio fosse realmente tão importante, por que na Bahia ou no Maranhão não se notou o mesmo crescimento”?

Otimismo e naturalidade

Já o secretário de Inteligência e Macro Estratégia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Elísio Contini, encara com muito otimismo os números do levantamento atribuído e divulgado pelo Barings Investments. “Ter milionários na agricultura é altamente positivo. Oxalá que todos os agricultores do país o fossem! A indústria brasileira está em crise. Não há nada de estranho que produtores rurais tenham aumentado suas rendas nas últimas décadas. Os sojicultores, por exemplo, ajudam muito o Brasil com as exportações. Sem a contribuição do agronegócio, incluindo os grandes produtores, a situação da economia no setor externo seria muito pior”, avalia.

Ele atribui boa parte deste desempenho ao “alto nível de educação” dos novos gestores da agropecuária brasileira e ao efeito que toda esta movimentação está trazendo para os municípios: “com jovens bem capacitados, a elevada renda é apenas uma consequência e termina impulsionando positivamente o interior do País, sobretudo as pequenas e médias cidades”. Contini vê reflexos, sobretudo, nas áreas urbanas: “o efeito multiplicador é enorme, fundamentalmente no setor de serviços”.

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O secretário de Inteligência e Macroestratégia da Embrapa, Elisio Contini. Foto Camila Sant'Ana

O secretário da Embrapa diz ainda que não se pode duvidar da força atual e do potencial futuro ainda maior da economia do Brasil Central. “A força de crescimento do agronegócio está no Centro-Oeste, incluindo o Mato Grosso do Sul, o Mato Grosso e algumas regiões no bioma Cerrado. Estados tradicionais de agricultura, como o Rio Grande do Sul e Bahia, terão desempenho menor, ainda que positivo”, prevê.

Emerson di Pieri, do Barings, acata e considera corretas todas as manifestações sobre o levantamento. Segundo ele, apesar de refletir um aquecimento de ingressos de profissionais da economia rural no roll de novos “milionários”, o estudo não deve ser visto como referência de mercado. “O trabalho foi direcionado para entidades que operam na administração de Fortunas - Private Banking and Welath Management – e utilizá-lo como parâmetro exclusivo para decisões de agronegócio não é recomendado”, avisa.


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