Publicado em 07/10/2014 13h00 - Atualizado em 07/10/2014 16h42

Pesquisa pioneira sugere uso do crambe na alimentação de bovinos

Ele ainda é praticamente desconhecido dos brasileiros, mas a ciência quer entendê-lo melhor. O crambe (Crambe abyssinica), grão originário da Etiópia, é o foco principal de uma pesquisa pioneira no Mato Grosso do Sul que tem boas chances de revolucionar a alimentação de ruminantes no País e no Mundo. A oleaginosa vem sendo alvo de um grupo de cientistas e de pelo menos uma indústria brasileira, para ser usada como alternativa à soja (farelo) na formulação de rações para bovinos e bubalinos. A primeira variedade para o País – a FMS Brilhante – foi selecionada por uma equipe da Fundação MS, em Maracaju, MS, nos anos 90 a partir de sementes originadas do México.

Texto e fotos: Ariosto Mesquita

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Grãos de crambe: potencial para dieta de bovinos

O estudo foi deflagrado em 2009 e vem sendo trabalhado em etapas distintas e consecutivas dentro da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), em Campo Grande, fundamentalmente através da Coordenação de Mestrado e Doutorado em Ciências Ambientais e Sustentabilidade Agropecuária da instituição salesiana.

Nos últimos dois anos, uma tese está avaliando a utilização conjugada de dois subprodutos da produção do biodiesel – farelo de crambe e glicerina bruta – na alimentação de bovinos. Mesmo com conclusão prevista ainda para 2014 (possivelmente ao final de novembro), os resultados parciais obtidos em 2013 permitem que o coordenador do núcleo, professor Luis Carlos Vinhas Itavo já garanta: “a mistura tem potencial para alimentação mantendo desempenho e ganho de peso animal semelhantes aos obtidos a partir de rações convencionais”.

O objetivo do estudo “Potencial de uso de subprodutos da produção de biodiesel na alimentação de bovinos”, tese conduzida pelo doutorando Eduardo Souza Leal, sob a orientação de Itavo, é verificar se o farelo de crambe e a glicerina bruta podem substituir, respectivamente, o farelo de soja e o milho na formulação de concentrados.

No ano de 2012, Leal testou a mistura em bovinos confinados e também em animais suplementados a pasto. Depois a confrontou com três outras combinações diferentes, uma delas o concentrado geralmente utilizado na pecuária brasileira: a base de milho e farelo de soja. O resultado parcial, obtido entre o final de 2012 e início de 2013 foi considerado positivo pelos cientistas e pode ajudar na obtenção do registro do farelo de crambe como base alimentar animal no Brasil.

Após a avaliação de ganho de peso total e de ganho médio diário, os animais foram abatidos. Em seguida os pesquisadores recolheram amostras de carne. “A partir do final de 2013 a pesquisa entrou na fase de avaliação de resultado econômico; estamos mensurando o desempenho de carcaça, cobertura de gordura e composição da carne. Possivelmente no final de novembro deste ano teremos resultados destas análises”, informa Itavo.


Suplementação a pasto

A pesquisa a campo com suplementação a pasto foi realizada na Fazenda Alair, em Rochedo, MS, de propriedade de Eriklis Nogueira. Quatro misturas diferentes foram oferecidas a 60 novilhas nelore que deram entrada no sistema em 14 de junho de 2012 e foram abatidas em 22 de outubro do mesmo ano. As amostras (contrafilé) retiradas destes animais representavam aproximadamente um quilo de carne/cabeça, material em processo de análise nos laboratórios da UCDB.

A mistura de 44,05% de farelo de crambe e de 31% de glicerina bruta (T4) em substituição, respectivamente, ao farelo de soja (fonte de proteína) e ao milho (fonte de energia) foi comparada ao concentrado básico de farelo de soja e milho (T1) e a duas outras composições: uma onde só o farelo de crambe substitui o farelo de soja (T2) e outra onde só a glicerina bruta substitui parcialmente o milho (T3). O GMD - ganho médio (kg/dia) – variou entre 0,66 (T3) e 0,74 (T4 e T2), ficando a mistura T1 com 0,71. As diferenças entre as médias foram consideradas “não significantes” pelas normas estatísticas, segundo informaram os pesquisadores.

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O doutorando Eduardo Souza Leal (esq.) e o professor Luis Carlos Vinhas Itavo conduzem a pesquisa no laboratório da UCDB

Em confinamento

Os mesmos percentuais de mistura foram mantidos para a avaliação em confinamento. Dessa vez foram utilizados 40 animais cruzados bífalo (híbrido com genética do bisão norte-americano) com nelore, sendo 20 machos e 20 fêmeas no período de 14 de agosto a 26 de novembro de 2012.

Os tratamentos ao longo de 104 dias foram feitos na área intensiva da Fazenda Escola da UCDB, em Campo Grande, MS. A amostra de carne por animal também observou o peso de médio de um quilo da região do contrafilé e também foi encaminhada para análise de composição em laboratório.

Entre os machos e fêmeas, o tratamento controle de milho e farelo de soja (T1)registrou média de ganho de peso total (GPT) de 106,9 kg/cabeça, com ganho médio diário (GMD) de 1,05 kg/animal. Com a oferta da mistura de farelo de crambe e glicerina bruta o GPT foi de 117,8 kg/cabeça e o GMD de 1,1 kg/animal. Também neste caso, tanto o professor Itavo quanto o seu orientado, Eduardo Leal, consideraram que não houve diferença estatística entre as médias.


Susto

Para se chegar a este ponto, outros três estudos ajudaram a fundamentar a atual pesquisa. Um deles - “Farelo de Crambe em substituição ao farelo de soja na dieta de ruminantes” -, concluído em 2010 (mas não defendido pelo acadêmico Anderson Dias Vieira de Souza), quase colocou “água no chope” da turma da UCDB ao comprovar que o aproveitamento ruminal do farelo de cambre era inferior ao do farelo de soja. Isso sem contar que o percentual de proteína já é ligeiramente inferior no primeiro (37%) em relação ao segundo (entre 44% e 48%).

“O farelo de cambre é rico em compostos antinutricionais do grupo glicosinolatos que atrapalham a digestão e reduzem o aproveitamento da proteína entre 15% a 20%”, explica o professor. Um dos desequilíbrios entre as duas oleaginosas é a presença de duas substâncias: a pectina (de alta digestibilidade) e a lignina (que dificulta o processamento da proteína). “O farelo de crambe tem 0% de pectina e 13,10% de lignina, enquanto o farelo de soja registra 7,5% de pectina e 1,12% de lignina”, detalha Eduardo Leal.

Na avaliação feita sobre quatro vacas fistuladas veio a constatação: o aproveitamento ruminal com a soja foi de 98,5% enquanto o crambe foi digerido em apenas 76,8% de seu volume. O restante foi excretado. A diferença de aproximadamente 20% de desempenho entre os farelos poderia comprometer qualquer indicação futura do crambe para alimentação de ruminantes, em especial de bovinos.

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Amostras de carne de animais alimentados com crambe na ração, no laboratório da universidade em Campo Grande, MS 

E veio a compensação

Entretanto, surgiu uma luz no fim do túnel. Os pesquisadores perceberam que ao mesmo tempo em que as vacas sentiram a presença do crambe, com o menor processamento ruminal, compensaram consumindo maior volume, algo também em torno de 20%.

Foi a deixa para que os estudos prosseguissem. “Não desistimos, uma vez que o proteico é barato e nossa ideia era conseguir encontrar um eventual substituto para o farelo de soja; creio que hoje o farelo de crambe seja 50% mais barato além do fato de não competir com a soja na produção de alimentos”, explicou.

O fornecimento de farelo de crambe para as pesquisas na UCDB foi feito gratuitamente pela Caramuru Alimentos, de Itumbiara, GO, que usa o grão para a produção de biodiesel. Como ainda não há utilização comercial deste resíduo no Brasil, o excedente é queimado em suas caldeiras.

Outra aposta da equipe da UCDB é de que o percentual de participação do biodiesel como combustível será crescente ao longo dos próximos anos, exigindo produção cada vez maior. A expectativa é de que esta demanda incentive a busca de novas oleaginosas, uma vez que a soja tem compromissos maiores de demanda para alimentação humana.

De acordo com o professor Itavo, os 2,3 bilhões de litros de biodiesel produzidos no ano de 2010 no Brasil vinham das seguintes fontes: soja (80%), gordura animal – sebo bovino (15%), óleo de algodão (4%) e outras fontes (1%). Em 2012, dados da Scot Consultoria já indicavam a seguinte participação: soja (75,2%), sebo bovino (17,2%), óleo de algodão (4,5%) e outras fontes (3,1%) para uma produção de 2,7 bilhões de litros (dados da Abiove – Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais).

O crambe, por sua vez, não concorre com a indústria alimentícia humana e tem mercado hoje limitado à produção do biodiesel, eventual atendimento a segmentos químicos (lubrificantes, plásticos, etc.) e potencial para alimentação de ruminantes. No cultivo tem outras vantagens: baixo risco, ciclo curto (90 dias) e, portanto, ideal para plantio após colheita de soja tardia.

Duas outras pesquisas na UCDB antecederam a atual avaliando o componente “glicerina”. Dessa forma, também auxiliaram na sedimentação de suas particularidades ajudando na adequação à mistura com o crambe. Um dos estudos fez avaliação in vitro da glicerina bruta para nutrição de ruminantes, enquanto outro avaliou o desempenho animal diante de concentrado a base de glicerina.

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Colheita de crambe em propriedade no município de Cristalina, GO

Cobertura de solo

Onde é plantado no Brasil, o crambe funciona de duas formas. Além de matéria prima para o biodiesel e outros setores industriais, serve como planta de cobertura, uma ferramenta utilizada por agricultores para a proteção de solo contra stress hídrico, erosões e plantas invasoras, além de garantir a manutenção de boa carga de macronutrientes na terra. Sua principal função é preparar o terreno para uma eficiente safra de verão no Brasil Central. Depois do grão colhido os restos da planta permanecem sobre o solo até as primeiras chuvas de outubro quando então é feito o plantio na palhada.

Rusticidade, ciclo curto (entre 85 a 90 dias), baixo custo e a pouca atração para as pragas são pontos que pesam a favor do crambe para funcionar como parceiro de outras culturas. A utilização de plantas de cobertura pressupõe a prática do plantio direto (semeadura sobre a palhada) que, por sua vez, tem a rotação de culturas como sua base de sustentação.
 

Pequena disponibilidade do grão é gargalo

Nos últimos anos, apenas o estado de Goiás vem trabalhando o crambe como cultura comercial no Brasil, voltada exclusivamente para a produção de biodiesel. “São aproximadamente cinco mil hectares plantados com uma produtividade média de 1.000 quilos/hectares o que dá uma produção final de cinco mil toneladas”, garante o diretor executivo e há seis anos pesquisador deste grão pela Fundação MS, Renato Roscoe. Em sua opinião, a pesquisa na UCDB é “fundamental” para selar o destino do farelo de crambe para a alimentação de bovinos. “Não há mais dúvidas que o produto é altamente competitivo para utilização na pecuária”, salienta.

Roscoe, no entanto, não esconde certa decepção pela perda de algumas áreas cultivadas pelo Brasil. “O limitador é como o caso de se discutir sobre as origens do ovo e da galinha; o produtor não planta, pois não tem onde entregar e a indústria não processa, pois não há quem produza”, ressalta.

Segundo ele, atualmente só a Caramuru Alimentos processa o crambe para produção do biodiesel. “E a empresa está aguardando resultados conclusivos de pesquisas para solicitar a comercialização do farelo”, acrescenta.

Até 2010 Roscoe lembra que também havia cultivos de crambe em Mato Grosso (região de Sorriso, com perto de 1,5 mil hectares) e no Mato Grosso do Sul (3,5 mil hectares) onde hoje restam apenas 400 hectares cultivados em Maracaju e São Gabriel do Oeste para a produção de sementes.

Autoria: Ariosto Mesquita

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