
Marcos Fava durante o Workshop “Rota & Cooperação: Caminhos e Desafios do Cooperativismo”. Foto Wisley Torales
O agronegócio brasileiro vive um momento de alta complexidade, marcado por um endividamento recorde, pela disrupção da inteligência artificial e pela necessidade de fortalecer a cooperação para agregar valor. A análise foi feita pelo especialista Marcos Fava Neves durante uma palestra para produtores e lideranças do setor.
Segundo Neves, a euforia dos últimos anos, com preços de commodities em patamares elevados, levou a um endividamento preocupante. Ele citou o caso real de um grupo familiar cujo patrimônio está avaliado em R$ 1,2 bilhão, mas que acumula uma dívida de R$ 1 bilhão.
"Uma dívida de um bilhão hoje, quanto que ela aumenta em um ano? Cento e cinquenta milhões. Quanto que ela aumenta por dia? Quase quatrocentos mil reais", detalhou Neves. Para ele, a solução, embora dolorosa, é clara. "Nesse momento é momento de dor, mas é momento em que vai ter que se desfazer de ativos para reduzir o endividamento. Essa conversa vale para quase todo mundo".
O especialista aconselha os produtores a fazerem uma conta simples: projetar a geração de caixa para os próximos cinco anos e descontar o serviço da dívida. "Se você não conseguir com a sua operação reduzir o endividamento, você vai ter que vender parte dos ativos para reduzir a conta do juro".
Outro ponto de forte impacto abordado foi o avanço da inteligência artificial (IA). Neves compartilhou sua própria experiência ao usar a tecnologia para redigir e revisar artigos, demonstrando a capacidade da IA de realizar em minutos tarefas que antes levavam dias.
"Com o negócio da IA, nós não vamos precisar daqui a dois, três anos, de médio volante, só do centroavante. É só o da entrega da peça final", comparou, referindo-se à automação de tarefas intermediárias em diversas profissões, como advocacia, medicina e a própria agronomia.
Para o campo, a tecnologia já permite o diagnóstico de lavouras e a recomendação de produtos. "Será que eu vou ter que ter na cooperativa a assistência técnica pesada do jeito que a gente tem? Daqui a cinco anos? Ou a coisa vai estar mais digital?", questionou.
Apesar dos desafios, Fava Neves apontou caminhos promissores. Ele destacou o potencial da "carnificação", ou seja, transformar grãos em proteína animal, e da bioenergia, com o avanço do etanol de milho, biodiesel e biogás. "Se a gente não vendesse carne de frango e carne suína pro mundo, e vendesse a soja e o milho que eles comeram, a exportação caía de treze bilhões de dólares para três".
A principal estratégia para o crescimento, no entanto, é a intercooperação. Neves criticou a falta de união entre as cooperativas brasileiras, que poderiam dominar mercados globais se atuassem em conjunto.
Ele apresentou como exemplo de sucesso a união de seis cooperativas do Paraná que, juntas, investiram R$ 1,6 bilhão em uma maltaria para atender a demanda da Heineken e da Ambev. A iniciativa vai reduzir as importações de malte do Brasil em R$ 800 milhões por ano.
"Sem produção e venda, não tem geração de renda, e não tem distribuição de merenda. O bom governo, o governo realmente social, ele tem que abrir o caminho para ter produção e venda, porque vai sobrar super orçamento para a merenda", finalizou Fava Neves.