A perspectiva de avanço nas tratativas comerciais entre blocos volta ao debate público em meio a um cenário regulatório mais rígido no mercado europeu. A análise de Alê Delara, estrategista em geopolítica aplicada ao agronegócio, aponta que a sinalização de assinatura do acordo ocorre justamente quando entra em vigor o regulamento europeu que deve redefinir as condições de acesso ao mercado.
Segundo o estrategista, o movimento europeu cria novas exigências para produtos agropecuários, como geolocalização de áreas, documentação específica, responsabilidade solidária e verificação detalhada de origem. Esses pontos alteram custos, ampliam riscos e reduzem a previsibilidade para quem exporta ao bloco.
O debate ultrapassa aspectos operacionais e assume caráter político e regulatório, afetando produtores, exportadores, compradores e financiadores. Mesmo com eventual assinatura do acordo, seu peso econômico pode diminuir caso o acesso ao mercado esteja condicionado às regras que passam a valer nos próximos anos.
“O ponto é bem direto: o Brasil e a UE falam em aproximar economias, mas o regulamento europeu avança numa linha que restringe a operação justamente de quem mais vende para lá. Quem está no dia a dia do agro sabe o tamanho da mudança: geolocalização de área, documentação, responsabilidade solidária, verificação de origem… tudo isso mexe com custo, risco e previsibilidade”, comenta.
O questionamento central é como compatibilizar o tratado comercial com o ambiente regulatório que a própria Europa está construindo. Sem essa convergência, o potencial de ganho real para o agro brasileiro tende a ficar limitado. “No fim, o que realmente importa para o agro é entender como o acordo será compatível com o ambiente regulatório que a própria Europa está construindo. Se esses dois caminhos não conversarem, é difícil falar em ganho real”, comenta.