
Foto: João Castro / Famasul
O Brasil tem a melhor chance dos últimos 40 anos para avançar na cadeia produtiva e deixar de ser um mero exportador de commodities para se tornar um fornecedor de produtos de alto valor agregado. A avaliação foi feita pelo economista Ricardo Amorim durante sua palestra no 16º MS Agro, na Famasul. Segundo ele, a reforma tributária e o acordo Mercosul-União Europeia são os principais vetores dessa transformação.
Amorim explicou que o sistema tributário atual, com impostos em cascata, penaliza a industrialização. “Quanto mais você tem etapas de produção e agrega valor, mais imposto você paga. Isso explica por que não industrializamos aqui”, afirmou. Ele usou o exemplo do café: o Brasil é o maior exportador do grão, mas a cápsula de expresso pode custar 37 vezes mais.
Com a reforma tributária, que deve ser implementada completamente até 2033, essa lógica se inverte. “A indústria vai pagar quase quinhentos bilhões de reais a menos de imposto. Isso vai acabar com a trava da industrialização”, disse o economista.
Para Amorim, o agronegócio, especialmente em estados como Mato Grosso do Sul, tem uma oportunidade clara de avançar na cadeia de valor. “Você pode vender soja em grão, pode ser farelo, pode ser óleo de soja. Mas, espera aí, eu uso a soja para alimentar e transformar em proteína animal, já agreguei valor. Não, em vez de proteína animal, eu vou vender refeição pronta”, exemplificou.
Ele citou o caso do Chile, que evoluiu de exportador de uvas para vinhos baratos e, hoje, é um grande vendedor de vinhos caros, multiplicando o valor da mesma matéria-prima. “A gente precisa pensar como agregar valor na cadeia e aproveitar essa oportunidade”, comentou.
Outro fator que pode acelerar essa transformação é a possível aprovação do acordo entre Mercosul e União Europeia. “A gente tem a melhor chance em vinte e cinco anos de aprovar o acordo. E a Europa é quem mais compra produtos de mais valor agregado, o que vai dar uma chance para o Brasil vender coisa mais cara”, analisou Amorim.
Apesar de se mostrar cético com os prazos, devido a promessas passadas, ele destacou que, se o acordo for concretizado, abrirá uma janela de oportunidade gigante para o agronegócio brasileiro que souber se posicionar para atender a essa demanda por produtos industrializados e de maior valor.