A iminente oficialização do acordo entre Mercosul e União Europeia (UE) traz uma conquista inédita para a suinocultura brasileira: o acesso preferencial a um dos mercados mais exigentes do mundo. Segundo análise do Centro de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Cepea), o tratado estabelece uma cota de 25 mil toneladas por ano para carne suína (in natura ou industrializada) com uma tarifa reduzida de € 83 por tonelada.
Embora o volume seja considerado pequeno quando comparado ao montante total exportado pelo Brasil — que embarca anualmente mais de 1 milhão de toneladas —, o acordo é visto como um marco diplomático. Até então, o setor não possuía uma reserva de mercado com vantagens tarifárias no bloco europeu, o que dificultava a entrada do produto nacional devido ao protecionismo local.
O desafio para a expansão em larga escala permanece nas taxas aplicadas ao que exceder essa cota. Acima das 25 mil toneladas, as tarifas do regime europeu voltam ao padrão, podendo atingir níveis que inviabilizam a competitividade de produtos de maior valor agregado, como presuntos, cortes defumados ou secos. Por essa razão, os pesquisadores do Cepea indicam que a Europa não deve se tornar, no curto prazo, um destino de grande volume como a Ásia.
"A UE não deve se tornar um grande destino imediato, mas pode reforçar a estratégia nacional de 'capilaridade' das exportações", avaliam os pesquisadores do Cepea.
A principal vantagem reside no ganho de prestígio e na diversificação de mercados. Ao cumprir os rigorosos protocolos sanitários e de bem-estar animal exigidos pela União Europeia para utilizar a cota, o Brasil eleva o "selo de qualidade" de sua proteína, facilitando a abertura de outros mercados premium ao redor do globo. É uma movimentação que foca menos no volume absoluto e mais na qualificação do portfólio exportador.
A implementação do acordo exigirá que as agroindústrias brasileiras ajustem processos para atender às especificidades europeias, especialmente no que tange à rastreabilidade. Para os produtores, a nova janela de exportação serve como uma válvula de escape para momentos de excesso de oferta interna ou retração em mercados tradicionais, garantindo maior resiliência econômica à cadeia produtiva.
Dessa forma, a suinocultura brasileira inicia 2026 com uma nova ferramenta de inserção internacional. O sucesso dessa cota dependerá da capacidade do país em ocupar o espaço com produtos de nicho, aproveitando a tarifa reduzida para construir uma imagem sólida da carne suína nacional em território europeu. O foco, portanto, está na abertura de portas institucionais que podem render frutos robustos no médio e longo prazo.