O mercado internacional de milho enfrenta um cenário de pressão nas cotações após a divulgação dos novos dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em janeiro de 2026. A produção global do cereal para o ciclo 2025/26 foi estimada em 1,29 bilhão de toneladas. Esse volume representa uma elevação de 1,02% na comparação com a projeção anterior, sinalizando um mercado com oferta abundante.
A análise semanal do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) destaca que este avanço produtivo está diretamente concentrado nos dois maiores produtores mundiais. O crescimento da oferta global decorre de ganhos de produtividade e do aumento da área colhida tanto nos Estados Unidos quanto na China, que superaram as expectativas iniciais dos analistas de mercado.
Nos Estados Unidos, a produção projetada subiu para 432,34 milhões de toneladas, o que equivale a um incremento de 1,60% sobre os dados passados. O país mantém sua liderança absoluta, beneficiado por condições climáticas favoráveis e pelo uso intensivo de tecnologia. Esse volume adicional de grãos norte-americanos altera o equilíbrio de preços nas principais bolsas de commodities do mundo.
Destaque da Produção Mundial: Estados Unidos: 432,34 milhões de toneladas (+1,60%) China: 301,24 milhões de toneladas (+2,12%) Produção Global Total: 1,29 bilhão de toneladas
A China também registrou um salto significativo em suas estimativas de colheita. A produção chinesa avançou 2,12%, atingindo a marca de 301,24 milhões de toneladas. O governo chinês tem investido na expansão da área plantada e em sementes de alto rendimento para garantir o abastecimento interno e reduzir a dependência externa, impactando o fluxo do comércio internacional do grão.
Com o incremento nessas potências agrícolas, a oferta mundial total de milho da safra 2025/26 foi calculada em 1,78 bilhão de toneladas. O número representa um avanço de 0,81% frente à estimativa anterior. Esse montante considera não apenas a colheita atual, mas também os estoques remanescentes, criando um ambiente de maior segurança no suprimento global.
Pelo lado do consumo, a demanda global apresentou uma evolução mais tímida em relação à oferta. O crescimento foi de apenas 0,16%, alcançando 1,49 bilhão de toneladas. Esse movimento foi sustentado majoritariamente pelo consumo doméstico dos Estados Unidos, estimado em 334,53 milhões de toneladas, e da Argentina, que deve consumir 16,70 milhões de toneladas internamente.
Balanço Global 2025/26: Oferta Total: 1,78 bilhão de toneladas Demanda Total: 1,49 bilhão de toneladas Estoques Finais: 290,91 milhões de toneladas (+4,21%)
A disparidade entre o forte aumento da oferta e o crescimento moderado da demanda resultou em uma elevação considerável nos estoques finais. O USDA projeta agora 290,91 milhões de toneladas armazenadas ao fim do ciclo, uma alta de 4,21% em relação à previsão anterior. O acúmulo de estoques é o principal fator que impede a recuperação dos preços no curto prazo.
A reação do mercado financeiro foi imediata e agressiva. Na Bolsa de Chicago (CME Group), as cotações do milho registraram uma queda semanal de 5,30%. O período encerrou com uma média de US$ 4,22 por bushel. Os fundos de investimento e os tradings ajustaram suas posições diante da perspectiva de um excedente produtivo que retira a urgência de compras por parte dos importadores.
A Argentina, embora seja um grande exportador, também foca no mercado interno para sustentar suas cadeias de proteína animal. O consumo de 16,70 milhões de toneladas no país vizinho reflete a estratégia de agregar valor ao grão dentro do território nacional. Essa dinâmica ajuda a equilibrar os volumes que chegam aos portos, mas não é suficiente para neutralizar a pressão vinda dos estoques mundiais recordes.
Para o produtor brasileiro, o cenário exige cautela na comercialização. A queda nas cotações internacionais em Chicago serve como referência para os preços domésticos. Mesmo com a demanda interna aquecida por indústrias de ração e usinas de etanol, a paridade de exportação torna-se menos atrativa quando as bolsas americanas operam em patamares baixos, influenciadas pela "supersafra" dos EUA e da China.
A produtividade elevada nos Estados Unidos e a expansão de área na China confirmam que a tecnologia no campo continua superando limites. A capacidade desses países em responder rapidamente a estímulos de mercado gera ciclos de oferta que testam a resiliência financeira dos agricultores em outras regiões do globo. O monitoramento do clima no Hemisfério Sul continua sendo a única variável capaz de alterar esse quadro de excesso.
O levantamento do Imea aponta que os dados de janeiro consolidam um viés baixista para o primeiro semestre de 2026. Com os estoques finais acima de 290 milhões de toneladas, os compradores têm maior poder de barganha. O mercado de milho entra agora em uma fase de observação, aguardando o desenvolvimento das lavouras de segunda safra no Brasil para fechar o balanço definitivo da temporada 2025/26.
As indústrias globais de processamento de milho, especialmente as ligadas à produção de biocombustíveis e amido, beneficiam-se dos custos de matéria-prima reduzidos. Entretanto, para o setor primário, o desafio está em gerenciar a venda da safra em um ambiente de preços depreciados e custos de produção que nem sempre acompanham a mesma velocidade de queda das commodities.
Os investidores na CME Group seguem monitorando a geopolítica e o câmbio, mas os fundamentos de oferta e demanda estabelecidos pelo USDA em janeiro dominam as estratégias atuais. A oferta robusta garante que, para o restante do ano, o abastecimento mundial de milho esteja assegurado, afastando riscos de escassez mesmo diante de possíveis instabilidades pontuais em exportadores menores.