A China consolidou um novo passo em sua estratégia de soberania agrícola ao reforçar políticas voltadas à autossuficiência na cadeia de grãos. O país anunciou medidas estruturadas para estabilizar a produção doméstica e fortalecer a tecnologia de sementes nacional. Segundo Isan Rezende, presidente da FEAGRO MT, esse movimento faz parte de um plano rigoroso de segurança alimentar que busca proteger o mercado chinês de oscilações externas.
O desempenho produtivo recente da potência asiática sustenta essa ambição de longo prazo. Em 2025, a China colheu o recorde de 714,9 milhões de toneladas de grãos, registrando um crescimento de 1,2% na comparação anual. Este volume não é visto como um evento isolado, mas como o resultado inicial do plano de transformação rural e modernização tecnológica lançado em abril de 2025, com metas estabelecidas até 2035.
A soja é o pilar central desta política de Estado por ser o insumo básico para a produção de óleos vegetais e, principalmente, de proteína animal. O governo chinês compreende que a dependência excessiva de fornecedores externos para alimentar seu rebanho suíno e avícola representa um risco estratégico. Por isso, o foco atual reside em elevar a produtividade por hectare e expandir as áreas de cultivo da oleaginosa em território próprio.
Estratégia Chinesa em Números: Colheita de grãos em 2025: 714,9 milhões de toneladas. Crescimento produtivo: 1,2% sobre o ano anterior. Horizonte do plano de modernização: até o ano de 2035.
A mudança na política comercial da China atinge diretamente o agronegócio brasileiro, que hoje é o principal parceiro dos chineses no setor. Em julho de 2025, a soja produzida no Brasil respondeu por 89% de todas as importações chinesas do grão. Esse alto nível de concentração evidencia uma vulnerabilidade que o governo de Pequim pretende mitigar através da diversificação de origens e do fomento à produção interna.
Para os produtores brasileiros, o cenário exige uma transição estratégica imediata. A dependência de um único grande comprador torna a economia rural brasileira sensível às decisões políticas de Pequim. Diante dessa realidade, a diversificação de mercados compradores e o aumento da exportação de produtos processados, como farelo e óleo de soja, tornam-se caminhos obrigatórios para a manutenção da rentabilidade.
A competitividade da soja brasileira passará a depender cada vez mais da diferenciação comercial. O investimento em genética adaptada a diferentes biomas, o manejo sustentável e a certificação de origem são ferramentas que podem garantir a preferência em mercados que valorizam a sustentabilidade. O Brasil precisa entregar não apenas volume, mas também valor agregado e conformidade ambiental para se manter relevante no tabuleiro global.
Dependência Comercial: Participação do Brasil nas importações chinesas (Julho/2025): 89%. Foco da pressão: Necessidade de diversificação de mercados.
O fortalecimento da infraestrutura logística nacional também é um fator de sobrevivência. Reduzir o Custo Brasil é fundamental para que a oleaginosa nacional continue competitiva mesmo se a oferta interna chinesa aumentar. Além disso, a adoção de instrumentos financeiros de proteção contra a volatilidade de preços e do câmbio deve ser incentivada para proteger as margens de lucro dos agricultores diante de possíveis quedas na demanda externa.
A tecnologia será a grande aliada do campo brasileiro nesta disputa por mercados. O avanço em práticas de agricultura regenerativa e o uso de inteligência artificial no monitoramento de safras permitem ganhos de eficiência que compensam as pressões tarifárias ou protecionistas. O setor produtivo nacional precisa acelerar a adoção dessas inovações para compensar a evolução tecnológica que a China está promovendo em suas províncias agrícolas.
Especialistas apontam que, embora a autossuficiência total chinesa seja um desafio físico difícil de alcançar no curto prazo devido à limitação de terras aráveis, qualquer avanço percentual na colheita da China retira milhões de toneladas do mercado internacional. Esse excedente global tende a pressionar as cotações em Chicago, forçando o Brasil a ser o produtor mais eficiente do mundo para sobreviver ao novo ciclo de preços.
A modernização rural chinesa inclui o uso intensivo de biotecnologia própria, o que pode reduzir o interesse do país em adquirir tecnologias de sementes desenvolvidas no Ocidente. O Brasil deve acompanhar de perto essa evolução para entender quais serão as novas exigências fitossanitárias e técnicas que a China poderá impor no futuro. A soberania em sementes é, para os chineses, o primeiro passo para o controle total de sua cadeia de suprimentos.
O cenário desenhado para 2035 mostra um mercado de soja muito mais equilibrado e regionalizado. O Brasil terá que buscar fatias de mercado no Sudeste Asiático, na Índia e em países africanos para compensar a retração gradual do apetite chinês. A estratégia nacional de longo prazo deve ser construída com base em parcerias bilaterais sólidas e na abertura de novos corredores de exportação.
A transformação da soja brasileira em biocombustíveis e rações dentro do território nacional é outra forma de agregar valor. Ao invés de exportar o grão in natura, o país pode focar na industrialização para reduzir os riscos logísticos e ampliar a margem líquida. O setor de energia verde surge como um consumidor interno robusto, capaz de absorver parte do volume que antes era destinado exclusivamente ao porto de Santos ou Paranaguá.
A soberania agrícola da China é um sinal claro de que o período de crescimento fácil das exportações brasileiras baseado apenas em volume está chegando ao fim. A gestão profissional da propriedade rural e a inteligência de mercado serão as habilidades mais exigidas do pecuarista e do agricultor moderno. O Brasil tem o solo e o clima, mas precisará de estratégia para enfrentar o planejamento centralizado da segunda maior economia do mundo.