Fungo da Amazônia combate pragas e pode gerar novos antibióticos
Publicado em 10/02/2026 10h00

Fungo da Amazônia combate pragas e pode gerar novos antibióticos

Pesquisadores da Embrapa descobriram um fungo inédito na Amazônia, o "Trichoderma agriamazonicum", com potencial para combater pragas agrícolas e superbactérias.
Por: Redação

Uma nova espécie de fungo descoberta na Amazônia por pesquisadores da Embrapa Amazônia Ocidental (AM) apresenta potencial para o desenvolvimento de bioprodutos para a agricultura e para a saúde. Batizado de Trichoderma agriamazonicum, o microrganismo combina a capacidade de controlar doenças em plantas com a produção de compostos naturais inéditos, com ação contra bactérias resistentes a antibióticos.

O nome do fungo reflete sua origem amazônica e sua vocação agrícola. Ele foi isolado de uma espécie de árvore madeireira nativa e pertence ao gênero Trichoderma, já conhecido por sua atuação no controle biológico. Contudo, a nova espécie possui características genéticas próprias que ampliam suas possibilidades de uso em sistemas produtivos sustentáveis.

A identificação ocorreu em 2023, pelos pesquisadores Thiago Fernandes Sousa e Gilvan Ferreira da Silva. Desde então, estudos no Laboratório de Inovação em Microbiologia Aplicada da Amazônia (AmazonMicro-Biotech), da Embrapa, confirmam o desempenho do microrganismo.

Aplicações na Agricultura

Testes em laboratório mostraram que o T. agriamazonicum é eficiente no controle de nove diferentes espécies de fitopatógenos, agentes que causam doenças em folhas de diversas culturas. Segundo Sousa, os resultados indicam que o fungo inibe o crescimento de patógenos como Corynespora cassiicola e Colletotrichum spp., que afetam lavouras de soja e frutas.

A ação ocorre tanto por micoparasitismo, quando o fungo ataca diretamente o patógeno, quanto pela produção de compostos orgânicos voláteis (COVs). Além do controle de doenças, uma linhagem do fungo se destacou pela alta capacidade de sintetizar o ácido indolacético (AIA), um hormônio que estimula o desenvolvimento vegetal.

Apesar da alta produção de AIA em laboratório, de 60,53 microgramas por mililitro, os testes em casa de vegetação com pimentão não mostraram um crescimento superior ao do grupo de controle. O dado sugere que a promoção de crescimento em campo depende de múltiplos mecanismos, e não apenas da produção isolada desse fitormônio.

Potencial contra Superbactérias

Um dos principais diferenciais da pesquisa foi o uso de mineração genômica para analisar os agrupamentos de genes biossintéticos (BGCs) do fungo. Essa análise permitiu prever e sintetizar peptídeos com atividade antimicrobiana inédita, os peptaibols. A metodologia, chamada syn-BNP, acelera a descoberta de moléculas bioativas.

Em ensaios controlados, um peptaibol de 18 aminoácidos, sintetizado com base na previsão genômica, mostrou-se ativo contra as bactérias Streptococcus sp. e Klebsiella pneumoniae, que podem causar pneumonia. A eficácia foi comparável ou superior à de antibióticos comerciais.

Esse mesmo composto também demonstrou eficiência antifúngica contra o Pseudopestalotiopsis sp., agente causal da mancha foliar em guaranazeiros, indicando sua dupla aplicação na medicina e na agricultura.

A Jornada da Descoberta

A história do fungo começou muito antes de sua identificação. "O Trichoderma foi isolado a partir da casca de cardeiro (Scleronema micranthum), uma espécie madeireira nativa. O isolado estava preservado em coleção de cultura desde 2004", relata Sousa.

Para os pesquisadores, o caso ilustra a importância estratégica das coleções biológicas. "Esse potencial poderia ter sido perdido para sempre se não houvesse a coleção de culturas. Isso mostra a necessidade urgente de investimento contínuo na conservação e pesquisa dos nossos recursos genéticos", enfatiza o pesquisador Gilvan Ferreira.

A descoberta, realizada no âmbito do laboratório Amazon Micro-Biotech, contou com o apoio de bolsistas do CNPq, Capes e Fapeam, e aponta a biodiversidade amazônica como fonte de recursos para o desenvolvimento de insumos agrícolas e farmacêuticos de última geração.