A adoção de bioinsumos na agricultura brasileira tem se mostrado uma estratégia eficiente para unir rentabilidade e preservação ambiental. No Paraná, um acompanhamento realizado ao longo da última década pela Embrapa Soja e pelo Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) comprovou que a coinoculação — aplicação conjunta de microrganismos benéficos nas sementes — elevou a produtividade da soja em uma média de 8,33%.
Desde a safra 2015/2016, as instituições monitoram o uso de boas práticas de fixação biológica de nitrogênio (FBN) em lavouras comerciais do estado. Os dados consolidados estão na publicação "Coinoculação da soja com Bradyrhizobium e Azospirillum na safra 2024/2025 no Paraná", que detalha os resultados obtidos em Unidades de Referência Tecnológica (URTs).
Segundo o pesquisador André Prando, da Embrapa Soja, e Edivan Possamai, do IDR-Paraná, as URTs permitiram validar a tecnologia diretamente no campo. "Os resultados obtidos ano após ano confirmaram que o uso adequado da inoculação/coinoculação aumentou a produtividade da soja e isentou os agricultores de custos com a adubação nitrogenada", afirmam.
Na safra 2024/2025, foram analisadas 22 URTs em 17 municípios paranaenses, abrangendo diferentes tipos de solo, clima e níveis tecnológicos. A produtividade média nas áreas coinoculadas atingiu 3.916 quilogramas por hectare (kg/ha), superando os 3.615 kg/ha registrados nas áreas sem a tecnologia.
O desempenho das lavouras com coinoculação também ficou acima das médias estadual (3.663 kg/ha) e nacional (3.561 kg/ha), conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
A técnica consiste no uso conjunto das bactérias Bradyrhizobium, responsável pela fixação de nitrogênio, e Azospirillum, que promove o crescimento das plantas. "As plantas de soja coinoculadas apresentam nodulação mais abundante e precoce, aumentando os ganhos proporcionados pela inoculação anual apenas com Bradyrhizobium", explica a pesquisadora Mariangela Hungria, da Embrapa Soja.
A prática vem ganhando espaço. No Paraná, 64% dos produtores utilizaram inoculantes na safra 2024/2025, sendo que 28% optaram pela coinoculação, segundo pesquisa da ANPII Bio e Kynetec. No Brasil, a coinoculação já é empregada em cerca de 35% das áreas de soja.
O impacto econômico e ambiental é expressivo. A fixação biológica de nitrogênio dispensa o uso de fertilizantes nitrogenados químicos, gerando uma economia estimada em US$ 25 bilhões somente em 2024. Além disso, a tecnologia evitou a emissão de mais de 260 milhões de toneladas de CO2 equivalente na atmosfera no mesmo período.
A soja demanda cerca de 80 kg de nitrogênio para cada tonelada de grãos produzida. A simbiose com as bactérias do gênero Bradyrhizobium permite que a planta capture o nitrogênio do ar e o transforme em nutrientes, eliminando a necessidade de adubação química nitrogenada e aumentando a competitividade do grão brasileiro no mercado internacional.
Mesmo em áreas onde a soja é cultivada há anos, a reinoculação anual se mostra vantajosa. "É essencial realizar a inoculação a cada safra, pois há ganhos comprovados na nodulação e no rendimento", conclui André Prando.