
Desde o início do ano, agricultores realizam protestos frequentes - Foto: Reprodução
O coração da capital espanhola foi tomado por um "tratoraço" nesta quarta-feira, em um movimento que expõe a profunda resistência dos produtores rurais europeus à integração comercial com a América do Sul. Cerca de 1.500 agricultores, utilizando 348 máquinas agrícolas, ocuparam as ruas centrais de Madri para manifestar repúdio ao acordo entre a União Europeia e o Mercosul. O protesto é um capítulo adicional de uma crise que se arrasta desde o início de 2026, mobilizando o setor primário contra as políticas de Bruxelas.
As quatro colunas de tratores que convergiram para o Ministério da Agricultura da Espanha simbolizam a insatisfação com dois pilares centrais: o tratado comercial recém-assinado e a iminência de cortes orçamentários na Política Agrícola Comum (PAC) previstos para 2028. Para os manifestantes, a abertura do mercado europeu aos produtos de Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia representa uma ameaça direta à sobrevivência das fazendas familiares e médias no continente.
As organizações convocantes, como a União de Uniões e a Unaspi, alegam que a entrada de commodities sul-americanas cria uma concorrência desleal. O argumento central é que os produtores do Mercosul não estariam submetidos às mesmas exigências ambientais e sanitárias rigorosas aplicadas na Europa. Segundo lideranças do setor, o acordo seria o "golpe final" na competitividade da agricultura local, que já lida com custos de produção elevados e uma burocracia ambiental crescente.
NÚMEROS DO PROTESTO EM MADRI
Manifestantes: 1.500 pessoas.
Maquinário: 348 tratores nas ruas.
Histórico: Em janeiro, a mobilização chegou a 25 mil pessoas e 15 mil tratores.
A assinatura do acordo, ocorrida em 17 de janeiro, foi celebrada por governos do Mercosul como uma vitória histórica para o agronegócio exportador. No entanto, o processo de ratificação agora enfrenta um labirinto jurídico e político. Após ser enviado ao Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE), o texto está temporariamente suspenso. Essa pausa dá fôlego aos movimentos de oposição, que tentam inviabilizar a implementação definitiva do tratado.
Os agricultores espanhóis temem, sobretudo, a eficiência produtiva do Brasil. Como o maior exportador global de soja, carne bovina e suco de laranja, o agronegócio brasileiro possui escala e tecnologia que superam a fragmentada estrutura produtiva europeia em diversos segmentos. A narrativa de "desvantagem competitiva" é o combustível que tem levado dezenas de milhares de produtores às ruas em países como França, Alemanha e, agora, com mais força na Espanha.
Além do comércio exterior, a Política Agrícola Comum (PAC) é o outro alvo da fúria ruralista. O setor reage à sinalização de cortes nos subsídios a partir de 2028, uma medida que visa redirecionar recursos para outras áreas do bloco europeu. Sem o amparo financeiro da PAC, muitas propriedades rurais no sul da Europa, onde a produtividade é menor que no centro do continente, temem a falência imediata diante da abertura de mercado.
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, tem se mantido como um dos principais defensores do acordo no Parlamento Europeu. Em pronunciamentos recentes, Sánchez destacou que a parceria com o Mercosul não é apenas uma questão de tarifas, mas de geopolítica e previsibilidade econômica. O governo espanhol argumenta que o tratado fortalece as relações comerciais e oferece novas oportunidades para a indústria e o setor de serviços do país.
Para tentar acalmar os ânimos no campo, o líder espanhol mencionou a existência de mecanismos de salvaguarda, como o chamado "travão de emergência". Essa ferramenta permitiria que a União Europeia interrompesse ou limitasse importações agrícolas caso houvesse um desequilíbrio severo em determinados mercados locais. Além disso, promessas de compensação financeira estão sendo discutidas para mitigar eventuais perdas de renda dos produtores europeus.
Apesar das garantias oficiais, o sentimento de desconfiança prevalece nas zonas rurais da Espanha. A percepção de que Bruxelas sacrifica a agricultura em prol de benefícios para os setores automotivo e tecnológico é amplamente difundida entre os manifestantes. Enquanto o Tribunal de Justiça da UE não emite um parecer final, a pressão das ruas deve continuar ditando o ritmo das negociações diplomáticas.
ESTRUTURA DO ACORDO
Países envolvidos: 27 da UE e 5 do Mercosul.
Status: Ratificação suspensa pelo Tribunal de Justiça da UE.
Gatilho de crise: Uso do "travão de emergência" para importações agrícolas.
O impacto desses protestos no Brasil é monitorado pelas entidades setoriais de carne e grãos. Uma eventual imposição de "cláusulas espelho" — que obrigariam o produtor brasileiro a seguir exatamente as mesmas regras de produção da Europa — é o ponto de maior preocupação para os exportadores nacionais. O setor produtivo do Mercosul defende que suas práticas já são sustentáveis e baseadas em ciência, rejeitando a imposição de barreiras não tarifárias disfarçadas de exigências ambientais.
As mobilizações desta semana em Madri reforçam que o caminho para a integração comercial entre os dois blocos ainda enfrentará muitos obstáculos físicos e políticos. A agricultura, mais do que um setor econômico, tornou-se o campo de batalha de uma disputa sobre soberania alimentar e proteção de mercados.
A decisão final sobre o acordo depende agora do parecer jurídico do Tribunal de Justiça da União Europeia e da capacidade de Pedro Sánchez em articular um consenso interno.