O setor agrícola da Índia, um dos mais tradicionais e protegidos do mundo, vive dias de intensa agitação. A formalização de um acordo comercial provisório entre o governo do primeiro-ministro Narendra Modi e os Estados Unidos acendeu um alerta vermelho nas áreas rurais do país. O temor central dos produtores indianos, segundo informações da AMR Business Inteligence, é que a redução ou eliminação de tarifas de importação abra caminho para uma "invasão" de subprodutos geneticamente modificados (GM).
A mobilização ganhou força com o posicionamento da organização Bharatiya Kisan Sangh. Mesmo sendo uma aliada política do governo, a entidade manifestou preocupação pública com a entrada de óleo de soja e grãos secos de destilaria (DDGs) — subproduto do milho utilizado em ração animal — derivados de biotecnologia norte-americana. A Índia mantém, historicamente, uma postura de extrema cautela e restrição ao cultivo e à importação de organismos geneticamente modificados.
Milhares de agricultores em diversas regiões do país iniciaram protestos, alegando que a abertura comercial pode desestruturar cadeias produtivas sensíveis. A principal queixa é que a entrada de subprodutos mais baratos e produzidos em larga escala nos EUA pode pressionar os preços internos e derreter a renda dos produtores locais, que operam com custos de produção superiores e menor escala.
PONTOS DE TENSÃO
Produtos sensíveis: Óleo de soja e grãos de destilaria (DDGs).
Biotecnologia: Temor pela entrada de transgênicos (GM) dos EUA.
Impacto econômico: Risco de queda nos preços e perda de renda local.
A questão dos transgênicos é um tema sensível na política agrícola indiana. O país permite apenas o cultivo de algodão GM, mantendo restrições severas para culturas alimentares. Os produtores acreditam que aceitar subprodutos derivados de milho e soja transgênicos dos EUA pode ser um "cavalo de Troia" para a futura liberação dessas sementes em solo indiano, alterando permanentemente a dinâmica do setor primário local.
As organizações rurais argumentam que o acordo provisório prioriza interesses diplomáticos e comerciais em detrimento da segurança alimentar e da autonomia do agricultor familiar. A pressão das ruas é vista como um desafio direto à governabilidade de Modi, uma vez que o setor agrícola representa uma parcela significativa do eleitorado do país e possui uma capacidade de mobilização já comprovada em crises anteriores.
Diante do cenário de instabilidade, o governo da Índia agiu rapidamente para tentar acalmar os ânimos. Autoridades do Ministério da Agricultura afirmaram que o país não abriu mão de sua soberania sanitária e que itens considerados "ultrassensíveis", como aves e laticínios, foram explicitamente excluídos das negociações com os norte-americanos para evitar danos colaterais ao mercado doméstico.
Para tentar conter a onda de protestos, o governo indiano assegurou que não haverá concessões para a importação de culturas geneticamente modificadas consideradas essenciais para a dieta da população. O discurso oficial foca em garantir que a redução tarifária será aplicada apenas em nichos que não prejudiquem diretamente a competitividade do grão produzido pelo agricultor indiano.
Entretanto, analistas de mercado apontam que a pressão dos EUA para ampliar sua fatia no mercado indiano é crescente. Washington vê na Índia um mercado consumidor gigantesco para seus excedentes de milho e soja, especialmente para atender à crescente indústria indiana de proteína animal, que demanda ração de baixo custo. Esse choque de interesses entre a necessidade industrial e a proteção ao produtor rural deve pautar as próximas rodadas de negociação.
RESPOSTA DO GOVERNO
Exclusão: Laticínios e aves estão fora do acordo.
Garantia: Não haverá concessão para culturas GM essenciais.
Objetivo: Evitar a escalada de protestos no campo.
A sustentabilidade política do acordo provisório dependerá da capacidade do governo em provar que a entrada desses insumos não afetará o sustento de milhões de famílias rurais. No Brasil, o setor de grãos monitora a situação com interesse, já que qualquer mudança na política indiana de aceitação de transgênicos pode abrir portas para o milho e a soja brasileira no futuro, alterando o fluxo global de commodities.
O acordo provisório entre Índia e Estados Unidos ainda aguarda etapas de ratificação, enquanto os sindicatos rurais prometem manter a vigília nas fronteiras e portos.