Dispositivo da Embrapa reduz mamada cruzada em bezerros leiteiros
Publicado em 24/02/2026 12h09

Dispositivo da Embrapa reduz mamada cruzada em bezerros leiteiros

Pesquisa da Embrapa e Unesp comprova que bebedouros com bico artificial reduzem a mamada cruzada e melhoram o bem-estar de bezerros leiteiros.
Por: Redação

A criação de bezerros leiteiros em sistemas coletivos ganha uma ferramenta simples e eficiente para solucionar um dos maiores gargalos do manejo: a mamada cruzada. Um estudo recente, desenvolvido pela Embrapa Pecuária Sudeste em parceria com a Unesp Botucatu, validou o uso de bebedouros acoplados com bicos artificiais como estratégia para reduzir comportamentos indesejados e elevar os índices de bem-estar animal.

A mamada cruzada ocorre quando os bezerros, privados do contato direto com a vaca e de estímulos naturais de sucção, passam a sugar partes do corpo de outros animais do grupo. Essa prática, embora pareça inofensiva para olhos leigos, é um desvio comportamental que gera prejuízos sanitários e econômicos consideráveis para a pecuária de leite, afetando o desenvolvimento das futuras matrizes.

Para a pesquisadora Teresa Alves, da Embrapa, o fenômeno é causado pela falta de estímulos de sucção adequados durante o dia. Em sistemas onde o leite é fornecido em horários restritos, o bezerro não consegue satisfazer seu instinto natural de mamar. A introdução do bico no bebedouro de água surge como uma resposta compensatória, permitindo que o animal exerça esse instinto de forma segura.

Redução drástica em comportamentos anormais

Os experimentos realizados com animais da raça Jersolanda (cruzamento de Holandês com Jersey) mostraram resultados nítidos. Bezerros que utilizaram baldes abertos para beber água direcionaram a sucção cruzada para o umbigo de colegas com uma frequência duas vezes maior do que aqueles que tinham acesso ao bico. Além disso, lesões no escroto e na base do úbere foram registradas apenas no grupo sem o dispositivo.

A sucção em áreas sensíveis é uma porta de entrada para inflamações umbilicais e a formação de bolas de pelo no sistema digestivo. Em fêmeas, o problema é ainda mais grave: o ato de sugar a glândula mamária de uma colega pode causar danos permanentes ao úbere, aumentando a susceptibilidade à mastite ou até a perda funcional de quartos mamários antes mesmo da primeira lactação.

"O acesso a um bico artificial nos bebedouros permite aos animais satisfazer seu instinto natural de sugar ao longo do dia, reduzindo práticas indesejáveis", explica a pesquisadora Teresa Alves.

No estudo, a frequência de sucção cruzada caiu de nove vezes ao dia nos grupos tradicionais para apenas cinco vezes nos grupos com o dispositivo. Outro dado interessante foi o comportamento noturno: os bezerros utilizaram o bebedouro com bico inclusive durante a noite, ajustando sua rotina para compensar os horários fixos da alimentação com leite.

Impacto no desempenho e manejo

Apesar da mudança na forma de ingestão da água, a pesquisa demonstrou que não houve prejuízo no desempenho zootécnico. O consumo total de água permaneceu similar entre os grupos, assim como a ingestão de leite e ração. O crescimento dos animais seguiu o padrão esperado, indicando que o esforço adicional para sugar a água pelo bico não gera fadiga que comprometa a nutrição.

O bico obriga o bezerro a beber mais devagar, o que estimula a salivação e aumenta a sensação de saciedade. Essa "alimentação lenta" é mais próxima da fisiologia natural do animal. O tempo de permanência no bebedouro aumentou, mas o volume ingerido não sofreu alterações que pudessem impactar negativamente a saúde ruminal ou o ganho de peso.

Comportamento Bebedouro Aberto Bebedouro com Bico
Frequência de Sucção Cruzada 9 vezes/dia 5 vezes/dia
Sucção em Áreas Sensíveis Frequente Rara/Inexistente
Tempo de Permanência no Bebedouro Curto Prolongado (maior saciedade)
Consumo de Água (Noite) 5,5 litros 5,0 litros

A facilidade de manejo é outro ponto destacado pelos pesquisadores. Criar animais em grupos facilita a lida diária e torna os bezerros mais dóceis e socializados. A interação social fortalece a capacidade dos animais de lidarem com mudanças de ambiente e situações de estresse, como o desmame, reduzindo a necessidade de intervenções veterinárias por estresse.

Metodologia e Adaptação na Fazenda

O estudo envolveu 24 bezerros criados em sistema de pasto de capim Cynodon com acesso à sombra. Os bebedouros com bico foram adaptados a partir de baldes coletivos já existentes no mercado, com a adição de boias para o enchimento automático. Essa adaptação simples mostra que a tecnologia é acessível e pode ser implementada por produtores de diferentes escalas, desde a agricultura familiar até grandes confinamentos.

Os resultados reforçam que o bem-estar animal não está apenas ligado à oferta de alimento, mas ao atendimento de necessidades comportamentais intrínsecas da espécie. Bovinos são animais gregários e a criação coletiva, quando apoiada por dispositivos que mitigam vícios como a mamada cruzada, apresenta-se como o modelo mais eficiente para a pecuária moderna.

O monitoramento semanal das bezerras desde o nascimento até o desmame comprovou que a estratégia é segura. A adoção dessa técnica contribui diretamente para a longevidade do rebanho leiteiro, garantindo que as bezerras cheguem à fase produtiva com úberes saudáveis e sem sequelas de lesões sofridas na infância.

A integração de enriquecimento ambiental e dispositivos funcionais nos piquetes de recria é uma tendência crescente. O Brasil, como protagonista na produção de leite, avança ao validar cientificamente práticas que unem produtividade e respeito à natureza do animal. O próximo passo da pesquisa envolve o monitoramento dessas bezerras até a primeira lactação para quantificar a redução de casos de mastite.

O experimento foi concluído na unidade da Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP), utilizando áreas de piquetes de 64 metros quadrados.