EUDR: nova regra europeia pode excluir pequeno produtor do mercado
Publicado em 24/02/2026 17h22

EUDR: nova regra europeia pode excluir pequeno produtor do mercado

Lei Antidesmatamento da UE (EUDR) impõe risco a US$ 17,5 bilhões do agro brasileiro, exigindo rastreabilidade total e desmatamento zero a partir de 2020.
Por: Da Redação

O agronegócio brasileiro enfrenta um divisor de águas em sua relação comercial com a Europa. A entrada em vigor da Lei Antidesmatamento da União Europeia (EUDR) está redesenhando as exigências para o acesso ao mercado comum europeu. Segundo um estudo recente da consultoria BIP, a nova regulação coloca sob pressão cerca de 16% das exportações da agroindústria nacional, o que representa um montante de US$ 17,5 bilhões anuais.

A EUDR faz parte da estratégia de neutralidade de emissões da Europa até 2050. Na prática, a lei proíbe a comercialização de produtos derivados de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. O impacto é direto sobre sete cadeias produtivas fundamentais para o Brasil: soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma. Para exportar, será necessário apresentar processos rigorosos de due diligence e georreferenciamento das áreas.

Um dos principais pontos de atrito é o descompasso regulatório. Enquanto o Código Florestal brasileiro permite o desmatamento legal em certas proporções, a lei europeia exige "desmatamento zero", independentemente da legalidade perante a legislação local. Em 2024, o Brasil desmatou 1,2 milhão de hectares, e mais da metade dessa área se enquadra nas definições de floresta da FAO, o que acende o alerta para os exportadores.

Impactos assimétricos e risco de exclusão

O estudo da BIP revela que as consequências da EUDR não serão uniformes. Os agricultores familiares, que compõem 77% dos estabelecimentos rurais do país, são os mais vulneráveis. A baixa capacidade de investimento em tecnologias de monitoramento e a dificuldade na organização de documentos podem levar à exclusão desses produtores das cadeias globais, mesmo que suas áreas estejam em conformidade ambiental.

Produtores médios e grandes possuem maior fôlego financeiro para adaptação, mas não estão isentos de riscos. O Cadastro Ambiental Rural (CAR), principal ferramenta de gestão, ainda enfrenta gargalos: apenas 4,5% dos 8 milhões de imóveis cadastrados tiveram a análise de regularidade concluída. Além disso, cerca de 19% dos produtores não possuem terra própria, enfrentando dificuldades extras com a ausência de titulação formal exigida pela UE.

"A baixa capacidade de investimento em tecnologia e documentação pode levar à exclusão de pequenos produtores das cadeias exportadoras."

As cooperativas agropecuárias aparecem como peças-chave nessa transição. Responsáveis por cerca de 5% dos embarques do setor em 2024, essas organizações precisam validar os dados de todos os seus cooperados. Se por um lado o desafio é centralizar informações de milhares de produtores, por outro, as cooperativas podem baratear custos ao investir em sistemas coletivos de controle e auditoria digital.

A nova dinâmica industrial e logística

Para a indústria e as tradings, a EUDR impõe a segregação física das cargas. As empresas terão que garantir que o grão ou a carne proveniente de área regular não se misture com produtos sem comprovação de origem. Operadores brasileiros deverão enviar declarações digitais de due diligence para cada lote exportado, contendo coordenadas geográficas e volumes exatos.

O descumprimento das regras pode ser financeiramente devastador. As multas previstas chegam a pelo menos 4% do faturamento anual do operador na União Europeia. Outras sanções incluem o confisco de mercadorias, a suspensão de importações e a proibição de participação em licitações públicas no bloco europeu. A governança corporativa, portanto, passa a ser um item de sobrevivência econômica.

Produto Nível de Vulnerabilidade Principal Desafio
Gado Alta Rastreabilidade desde a origem (indiretos)
Cacau Alta Predominância de pequenos produtores
Café Média/Alta Fragmentação da base produtiva
Soja Média Escala e logística de segregação

O setor de logística e armazenagem também terá que se modernizar. A necessidade de manter registros detalhados e integrar sistemas de monitoramento elevará os custos operacionais. No entanto, essa pressão por transparência pode acelerar a digitalização do campo, trazendo benefícios de longo prazo na gestão de estoques e na eficiência do transporte rodoviário e ferroviário.

Oportunidades na modernização

Apesar dos riscos, a regulação europeia funciona como um catalisador para a modernização tecnológica. Há uma demanda crescente por soluções de blockchain, inteligência artificial e geolocalização. O fortalecimento da competitividade brasileira no comércio global de commodities sustentáveis depende de como o país responderá a esses requisitos de conformidade.

Marcelo Pagoti, da BIP, observa que o avanço do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, após 26 anos de negociações, reforça que a sustentabilidade não é mais um diferencial, mas um pré-requisito. A eliminação gradual de tarifas para 91% do comércio entre os blocos premiará as cadeias que conseguirem comprovar sua integridade ambiental de forma transparente e auditável.

A adaptação exigirá parcerias sólidas entre o governo brasileiro e associações setoriais para acelerar a análise do CAR e a regularização fundiária. O Brasil possui sistemas de monitoramento de ponta, como o PRODES e o DETER, que servem de base para a defesa da produção nacional, desde que integrados de forma eficiente às exigências de mercado.

O sucesso do agro brasileiro em 2026 dependerá da capacidade de transformar restrições ambientais em vantagens competitivas no cenário global.