Reinvenção constante é o segredo para a perpetuidade das empresas rurais
Publicado em 25/02/2026 11h30

Reinvenção constante é o segredo para a perpetuidade das empresas rurais

Durante a Abertura da Colheita do Arroz em Capão do Leão (RS), o especialista Felipe Leal defendeu que a inovação no campo exige mudança de mentalidade.
Por: Redação

Painel Enquanto Você Dormia. Foto: Paulo Rossi Divulgação

O agronegócio brasileiro vive um momento de convergência entre tradição e modernidade. Durante a 36ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz e Grãos em Terras Baixas, realizada em Capão do Leão (RS), a discussão central no auditório Frederico Costa não girou apenas em torno de máquinas ou defensivos, mas sobre o comportamento humano diante das transformações globais. O especialista Felipe Leal, sócio da StartSe, destacou que a competitividade do setor depende da capacidade do produtor em abraçar novas dinâmicas de mercado.

A palestra, intitulada “Enquanto você dormia o mundo não parou de se transformar”, trouxe um alerta sobre a velocidade das mudanças. Leal pontuou que o mundo opera em ciclos cada vez mais curtos, onde a reinvenção constante deixou de ser um diferencial para se tornar um requisito de sobrevivência. Para o setor arrozeiro, que trabalha com janelas produtivas rigorosas, entender essa aceleração é o primeiro passo para garantir a perpetuidade do negócio.

A China foi apresentada como o maior exemplo dessa metamorfose global. O país asiático, principal parceiro comercial do Brasil, consolidou-se como protagonista não apenas no consumo de commodities, mas na criação de modelos de negócios e tecnologias que acabam por impactar a produção brasileira. A influência chinesa dita tendências de consumo e padrões de eficiência que o produtor nacional precisa acompanhar para manter sua relevância no cenário internacional.

Tecnologia Gradual e Acessível

Um dos pontos mais debatidos foi a desmistificação do custo tecnológico. Muitas vezes, o produtor rural hesita em adotar ferramentas digitais por acreditar que elas exigem investimentos proibitivos ou infraestruturas complexas. No entanto, Felipe Leal defendeu que a transformação tecnológica pode e deve ocorrer de maneira escalonada, permitindo testes simples e baratos antes de grandes implementações.

“Às vezes a gente não abraça a tecnologia porque a gente acha que é muito caro, demanda muita coisa. Mas dá para empregar a tecnologia de maneira rápida, barata e fazer testes mais simples”, destacou o especialista.

Essa visão de "tecnologia acessível" foca em resolver dores específicas do cotidiano, como a melhoria na gestão de dados ou o uso de aplicativos de monitoramento, sem necessariamente trocar todo o parque de máquinas. A inovação, nesse contexto, é vista como um meio para simplificar processos e não como um fim em si mesma. O indivíduo é o elo central que conecta essas tendências para gerar resultados reais no talhão.

O papel da Indústria na Inovação

A aproximação entre as empresas de insumos e o dia a dia do produtor também foi pauta no evento. Rafael Vicentini, diretor de Marketing da BASF, ressaltou que o desenvolvimento de novas soluções deve nascer de dentro da porteira para fora. Ouvir o agricultor e entender as particularidades da cultura do arroz é o que permite que a pesquisa científica entregue ferramentas que realmente aumentem a produtividade e a sustentabilidade.

A estratégia das grandes companhias do setor tem sido focar na cultura do arroz como prioridade, integrando sistemas de cultivo de soja em terras baixas. Essa diversificação exige uma gestão de risco mais apurada e o uso de dados para prever o comportamento do solo e do clima. A inovação tecnológica atua aqui como uma camada de segurança para o produtor que decide diversificar sua matriz produtiva.

Fator de Mudança Impacto no Agronegócio
Novas Tecnologias Dinamizam o mercado e alteram o comportamento dos clientes.
Influência da China Dita novos modelos de negócios e protagonismo econômico.
Modelos de Gestão Focam na exploração da inovação e agilidade decisória.
Fator Humano Desenvolve habilidades para conectar tendências e resultados.

Entre a Relevância e a Perpetuidade

Felipe Leal trouxe uma reflexão geográfica e temporal sobre o desenvolvimento. Segundo ele, países de primeiro mundo operam em estágios avançados, o que obriga o Brasil a "beber da fonte" onde as inovações são criadas. No entanto, há um contraste natural entre a velocidade frenética do mundo digital e o ciclo biológico do campo, que exige tempo e qualidade.

A relevância foi definida como o sucesso no presente — o "agora" da colheita e das vendas. Já a perpetuidade refere-se ao planejamento do futuro e à capacidade de o negócio rural atravessar gerações. Ambos os pilares são complementares e exigem que o produtor mantenha um olhar atento às mudanças externas sem perder a essência da qualidade produtiva que caracteriza o arroz gaúcho.

O evento, realizado pela Federarroz com apoio da Embrapa e do Senar, segue com o tema “Cenário atual e perspectivas: conectando campo e mercado”. A programação busca justamente estreitar esses laços, mostrando que a porteira da fazenda não pode mais ser uma barreira para as transformações que ocorrem em Xangai ou no Vale do Silício. A modernização do campo brasileiro é, antes de tudo, uma questão de atitude e visão estratégica.

A Abertura Oficial da Colheita do Arroz termina nesta semana, consolidando o Rio Grande do Sul como o palco das discussões mais avançadas sobre o futuro da produção em terras baixas.