
O aumento da temperatura da superfície do Oceano Atlântico vem modificando o regime de chuvas no Brasil e contribuindo para eventos climáticos extremos que já afetam o litoral paulista e regiões de Minas Gerais. A combinação entre oceano mais quente, atmosfera carregada de umidade e frentes frias potentes cria as condições para episódios de precipitação intensa, enquanto outras regiões do país sofrem com secas prolongadas.
O meteorologista Marcelo Seluchi, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), explica que o fenômeno faz parte de uma tendência global de aquecimento dos oceanos, que eleva a taxa de evaporação e lança volumes crescentes de vapor d'água na atmosfera. "E aí temos um problema duplo. Porque, devido ao aquecimento global, a atmosfera também está mais quente, e acaba por transformar em chuvas extremas toda a umidade que os ventos, e principalmente as frentes frias, trazem do oceano", afirma Seluchi.
Nos últimos dias, a temperatura média das águas oceânicas em pontos próximos à costa brasileira registrou até 3°C acima da média histórica do período. Segundo o especialista, o dado isolado não é o mais preocupante. "O ponto crítico não é esse, mas sim o tamanho da área onde essa elevação da temperatura das águas acontece", alerta. Quanto mais extensa a mancha de calor oceânico, maior o volume de umidade lançado na atmosfera — e maior o risco de chuvas volumosas.
Dados de monitoramento, incluindo registros de satélite da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa), apontam que a taxa de aquecimento dos oceanos acelerou nas últimas décadas. Um estudo publicado em janeiro de 2026 na revista Advances in Atmospheric Sciences registrou que, em 2025, o aquecimento global dos oceanos atingiu novo recorde, impulsionado pelo aumento das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera.
A professora Ilana Wainer, doutora em meteorologia pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP), aponta que o aquecimento global dos oceanos é documentado desde 1850 e se acelerou a partir da década de 1980. Junto com isso, surgem as chamadas ondas de calor marinho — aquecimentos localizados e temporários que podem amplificar eventos climáticos extremos.
"Ainda estamos entendendo como elas surgem, com que frequência e por quanto tempo duram. Ainda assim, é possível afirmar com segurança que, isoladamente, elas não causam as chuvas intensas, embora, dependendo das condições, possam torná-las mais severas", explica Ilana. O campo científico considera o tema relativamente novo, e pesquisas seguem em andamento para compreender os padrões de formação e impacto dessas anomalias térmicas.
Para o setor agrícola brasileiro, a irregularidade na distribuição das chuvas representa uma das principais ameaças à estabilidade da produção. Enquanto o excesso hídrico provoca inundações, perdas de solo e danos a lavouras e infraestrutura rural, a estiagem compromete o desenvolvimento das culturas, reduz a produtividade e eleva os custos de produção.
O Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo. Qualquer oscilação significativa no regime hídrico afeta diretamente safras de soja, milho, café, cana-de-açúcar e pastagens — culturas que sustentam boa parte da balança comercial nacional. Eventos climáticos extremos têm gerado perdas bilionárias ao setor nas últimas safras, e as perspectivas apontam para uma maior frequência desses episódios.
Seluchi destaca que a distribuição irregular das chuvas não se explica apenas pelo oceano. Parte do problema está na degradação ambiental do interior do país. O meteorologista cita o fenômeno dos chamados "rios voadores" — fluxos de vapor d'água originados na Floresta Amazônica que são transportados pela atmosfera até outras regiões do Brasil e da América do Sul.
"Estamos vendo muitas chuvas em algumas regiões do Brasil, mas em termos gerais, está chovendo menos. Isso está acontecendo porque a umidade não vem só dos oceanos. Vem também da Amazônia, do interior do país, de regiões hoje desmatadas", explica.
Com a substituição da vegetação nativa por pastagens ou áreas agrícolas sem cobertura, o solo perde a capacidade de evapotranspirar, reduzindo a umidade disponível para os rios voadores. "Quando suprimos a vegetação nativa por áreas de pastagem, esse solo evapora menos. E disso decorre essa enorme irregularidade. Porque, dependendo da direção de onde os ventos estão soprando, podemos estar com uma fonte de umidade degradada, e aí se estabelece um círculo vicioso no qual chove pouco porque o solo está seco e o solo está seco porque chove pouco", descreve Seluchi.
O cenário coloca o agronegócio diante de um desafio que vai além da gestão produtiva: a necessidade de preservação ambiental como fator direto de viabilidade econômica. Regiões que avançaram sobre a vegetação nativa já enfrentam regimes hídricos mais instáveis, com impacto direto sobre a capacidade produtiva do campo.