Juros altos travam investimentos no campo e derrubam Moderfrota em 49%
Publicado em 09/03/2026 15h15

Juros altos travam investimentos no campo e derrubam Moderfrota em 49%

O crédito rural empresarial somou R$ 354,4 bilhões entre julho de 2025 e fevereiro de 2026, crescimento de 7%, mas os investimentos recuaram 20% pela pressão dos juros altos.
Por: Wisley Torales

O crédito rural empresarial acumulou R$ 354,4 bilhões em contratações nos primeiros oito meses do Plano Safra 2025/2026, entre julho de 2025 e fevereiro de 2026. O resultado representa crescimento de 7% sobre os R$ 330,8 bilhões registrados no mesmo período da safra anterior. Os dados constam no Boletim de Crédito Rural divulgado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, com base nas informações do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro, mantido pelo Banco Central do Brasil.

Os recursos efetivamente concedidos — aqueles já liberados nas contas dos produtores — atingiram R$ 342,9 bilhões no período, crescimento de 4% sobre o ciclo anterior. O desempenho positivo em volume total, porém, convive com movimentos contraditórios entre as linhas de financiamento: enquanto instrumentos privados como as Cédulas de Produto Rural (CPR) e a industrialização registraram expansão expressiva, as linhas tradicionais de custeio, investimento e comercialização recuaram de forma generalizada.

CPR avança 39% e se torna o principal instrumento do ciclo

A expansão do crédito rural no período foi puxada principalmente pelas Cédulas de Produto Rural, que somaram R$ 163,4 bilhões em contratações — crescimento de 39% em relação ao mesmo intervalo da safra anterior. O instrumento, que permite ao produtor antecipar recursos comprometendo parte da produção futura, tem ganhado espaço como alternativa às linhas oficiais subsidiadas, especialmente em um ambiente de juros elevados.

O Ministério da Agricultura destaca que, como os recursos captados por meio de CPR se destinam majoritariamente ao custeio da safra, ao somar CPR e custeio tradicional o volume total destinado a essa finalidade alcança R$ 269,8 bilhões — o que evidencia a força do segmento de custeio dentro do ciclo atual, ainda que por vias distintas das linhas tradicionais.

A industrialização também registrou desempenho relevante. As contratações chegaram a R$ 22,2 bilhões, alta de 56% sobre o ciclo anterior. Nas concessões, o segmento avançou 51%, atingindo R$ 21,5 bilhões — resultado que reflete o crescimento do processamento agroindustrial como vetor de agregação de valor à produção nacional.

Juros altos derrubam investimentos e programas estruturantes

Em sentido oposto ao avanço da CPR e da industrialização, as linhas tradicionais de financiamento registraram retração generalizada. O custeio contratado recuou 13%, totalizando R$ 106,4 bilhões, e os recursos efetivamente liberados caíram 16%, para R$ 103,4 bilhões. A comercialização apresentou queda de 15% nas contratações e de 19% nas concessões.

Os investimentos tiveram o pior desempenho relativo do ciclo. As contratações somaram R$ 39,5 bilhões, queda de 20%, e as concessões recuaram 33%, para R$ 33 bilhões. A Secretaria de Política Agrícola do Ministério reconhece a causa: "o panorama relativo dos investimentos se manteve inalterado, com retração de 20%, refletindo a cautela do setor diante das atuais taxas de juros".

Com a Selic em 15% ao ano, o custo do crédito de mercado compromete a viabilidade de projetos de longo prazo no campo. Os principais programas de modernização agrícola sentiram o impacto de forma direta. O Moderfrota, linha dedicada à aquisição de tratores e implementos agrícolas, despencou 49% nas contratações. O Proirriga, voltado para irrigação, registrou retração de 48%. O Inovagro recuou 33%, o Pronamp caiu 34% e o Prodecoop apresentou queda de 3%.

O cenário aponta para uma postergação dos investimentos em máquinas, infraestrutura e tecnologia no campo — decisões que, quando adiadas por um ou dois ciclos, tendem a comprometer a produtividade e a competitividade futura das propriedades rurais.

LCA controlada cresce 4.038% com mudança regulatória

No campo das fontes de financiamento, o destaque absoluto ficou com as Letras de Crédito do Agronegócio na modalidade controlada, que avançaram 4.038% e atingiram R$ 25,7 bilhões. O crescimento está diretamente associado a mudanças regulatórias que ampliaram o uso do instrumento dentro das fontes controladas — e não reflete necessariamente expansão orgânica de demanda por crédito.

Os recursos controlados totalizaram R$ 98,8 bilhões no período. Os recursos obrigatórios alcançaram R$ 36 bilhões, com alta de 5%. Em sentido contrário, a poupança rural controlada caiu 26%, somando R$ 10,6 bilhões, e os fundos constitucionais recuaram 7%, para R$ 13,1 bilhões.

Nas fontes não controladas, o volume total chegou a R$ 80,7 bilhões, queda de 24%. A LCA livre recuou 36%, para R$ 41,1 bilhões. A poupança rural livre, porém, avançou 28%, atingindo R$ 35,2 bilhões. O BNDES Livre registrou retração de 18%, somando R$ 3,8 bilhões.

61% dos recursos equalizáveis ainda disponíveis

Do total de R$ 113,4 bilhões programados em recursos equalizáveis no Plano Safra 2025/2026, apenas R$ 44,1 bilhões foram concedidos até fevereiro — o equivalente a 39% do montante previsto. Segundo o Ministério, "ainda restam 61% disponíveis para contratação até o fim do plano", o que indica janela relevante para produtores que ainda não acessaram as linhas subsidiadas no segundo semestre do ciclo.

Entre as instituições que operam crédito equalizado para investimento, o Banco do Brasil lidera com R$ 6,3 bilhões, seguido pelo BNDES, com R$ 5,5 bilhões. No custeio equalizado, o Banco do Brasil também ocupa a primeira posição, seguido por Sicoob e Sicredi. A Cresol se destacou ao executar 100% do crédito equalizado de custeio programado para o ciclo.

Além dos valores já liberados, R$ 15,1 bilhões em operações contratadas aguardam liberação, incluindo recursos destinados a programas como Pronamp, PCA, Funcafé e Moderfrota — volume que ainda deve ingressar no sistema produtivo nos próximos meses.