A economia global e o agronegócio brasileiro operam sob "neblina" nesta terça-feira (10). O conflito no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, completou sete dias de escalada sem qualquer sinal de cessar-fogo. Esse cenário de guerra prolongada, marcado por retaliações iranianas e a consequente alta no preço do petróleo, gera um efeito cascata que atinge desde o frete marítimo até a formação de preços das commodities em Chicago.
Segundo análise do Rabobank, a volatilidade internacional tem levado investidores a buscarem ativos fora dos Estados Unidos, o que, curiosamente, pode oferecer algum suporte a moedas latino-americanas como o real. No entanto, o alívio é limitado pelas incertezas fiscais domésticas. Na semana anterior, o dólar encerrou cotado a R$ 5,2381, acumulando uma depreciação de 2,2% do real — o oitavo pior desempenho entre 24 moedas emergentes. A projeção da instituição é que a moeda americana feche 2026 em R$ 5,55.
No cenário interno, os dados confirmam que a economia brasileira perdeu tração. O PIB de 2025 fechou com alta de 2,3%, um recuo significativo frente aos 3,4% registrados em 2024. No último trimestre do ano passado, o crescimento foi de apenas 0,1%, mostrando que o país entrou em 2026 em marcha lenta.
Apesar da freada no crescimento geral, setores específicos mostram resiliência. A produção industrial saltou 1,8% em janeiro, o melhor resultado em quase dois anos. No comércio exterior, a balança comercial de fevereiro registrou um superávit de US$ 4,2 bilhões, um recorde para o mês, impulsionado pela força das exportações agropecuárias e pelo recuo nas importações de bens de capital.
"A combinação de incerteza tarifária e geopolítica tem levado investidores globais a diversificarem posições, o que favorece o real mesmo diante do risco fiscal", aponta o Rabobank.
O mercado de trabalho apresenta sinais mistos. Embora janeiro tenha registrado a abertura de 112,3 mil vagas formais (Caged), a taxa de desemprego interrompeu uma sequência de quedas e subiu para 5,4%. Para o produtor rural, o foco agora se volta para a divulgação do IPCA de fevereiro. A inflação oficial é o termômetro que definirá os próximos passos da taxa Selic, impactando diretamente o custo do crédito rural para o custeio da próxima safra.
| Indicador Econômico | Resultado/Projeção | Impacto no Agronegócio |
| Dólar (Rabobank) | R$ 5,55 (fim de 2026) | Encarece insumos e aumenta receita de exportação |
| PIB 2025 | 2,3% | Indica menor consumo doméstico |
| Balança Comercial | Superávit US$ 4,2 bi | Reflete competitividade dos grãos e carnes |
| Selic/IPCA | Em monitoramento | Define juros do financiamento agrícola |
Com o petróleo em alta, o custo logístico torna-se o principal vilão das margens do agro. O aumento do diesel impacta o transporte da safra de verão (soja) até os portos e o plantio do milho safrinha. A recomendação dos analistas é que o produtor aproveite momentos de "repique" no dólar para travar custos de fertilizantes e defensivos, protegendo o fluxo de caixa contra a desvalorização cambial projetada para o final do ano.
Os próximos dias serão decisivos, com o mercado atento aos dados de varejo e serviços. No entanto, é o tabuleiro de xadrez no Oriente Médio que continuará dando as cartas na economia global, exigindo do produtor brasileiro uma postura conservadora e focada na proteção de margens.
A divulgação do IPCA de fevereiro, prevista para esta semana, deve trazer novos contornos para as expectativas de juros no Brasil.