Suinocultura: relação de troca com milho cai pelo 6º mês seguido
Publicado em 19/03/2026 11h44

Suinocultura: relação de troca com milho cai pelo 6º mês seguido

A valorização de 4,6% no preço do milho em março reduziu o poder de compra do suinocultor paulista pela sexta vez consecutiva, aponta o Cepea.
Por: Redação

O cenário para a suinocultura paulista neste fechamento de primeiro trimestre de 2026 apresenta desafios severos na gestão de custos. De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o poder de compra do produtor frente ao milho registra queda pelo sexto mês seguido. O movimento é sustentado por uma valorização do grão que supera, com folga, a estabilidade observada nos preços do animal vivo.

Até o dia 17 de março, o suíno vivo comercializado na indústria em São Paulo manteve uma média de R$ 6,94 por quilo. O valor representa uma oscilação positiva de apenas 0,5% em comparação aos números de fevereiro. Na contramão, o milho negociado no mercado de lotes em Campinas (SP) saltou para R$ 70,96 por saca de 60 quilos, um avanço de 4,6% no período.

Esta disparidade entre o preço do insumo e o valor de venda do produto final comprimiu a relação de troca. Atualmente, com a venda de um quilo de suíno vivo, o pecuarista consegue adquirir 5,87 quilos de milho. O índice revela uma perda de 3,9% na capacidade de aquisição em relação ao mês anterior, evidenciando o aperto nas margens de lucro das granjas.

DADO ECONÔMICO: A alta de 4,6% no milho em março de 2026 é a variação mensal mais expressiva para o grão desde março de 2025.

A pressão sobre o preço do milho no mercado físico brasileiro possui raízes na baixa disponibilidade de lotes para pronta entrega. Muitos produtores de grãos optam por reter o cereal, aguardando patamares de preços ainda maiores. Somado a isso, a demanda das indústrias de ração e de proteína animal segue aquecida, o que acirra a disputa pelo produto disponível.

O componente geopolítico também desempenha papel fundamental nesta escalada de preços. As incertezas geradas pelos conflitos militares no Oriente Médio provocam uma corrida para a formação de estoques preventivos. O temor de interrupções nas cadeias globais de suprimentos e a volatilidade do petróleo impactam diretamente os custos logísticos e a percepção de risco dos agentes de mercado.

Apesar do recuo mensal contínuo na capacidade de compra, o levantamento do Cepea indica que, na comparação anual, a situação ainda guarda uma leve vantagem. Em relação a março de 2025, a relação de troca apresenta uma melhora de 2%. Entretanto, essa margem positiva herdada do ano anterior está sendo rapidamente consumida pela escalada recente dos custos de nutrição.

RELAÇÃO DE TROCA: Em março de 2026, 1kg de suíno vivo compra 5,87kg de milho, contra os 6,11kg registrados em fevereiro.

O mercado de suínos, por sua vez, enfrenta dificuldade para repassar esses custos ao longo da cadeia. O consumo doméstico de carne suína, embora resiliente, encontra resistência para absorver altas significativas no varejo. Com isso, os frigoríficos operam com cautela nas compras, mantendo os preços do animal vivo em patamares próximos à estabilidade para evitar o acúmulo de carcaças nos estoques.

Para o suinocultor independente, o momento exige gestão rigorosa do fluxo de caixa. A nutrição representa cerca de 70% a 80% do custo total de produção, e o milho é o principal componente dessa conta. A estratégia de muitos produtores tem sido o ajuste na densidade nutricional das dietas ou a busca por fontes alternativas de energia, como o sorgo ou o trigo, quando o diferencial de preço compensa o frete.

Os pesquisadores do Cepea destacam que a tendência para o restante de março depende do ritmo das chuvas nas áreas de segunda safra. Se o clima favorecer o desenvolvimento do milho safrinha, a pressão sobre o mercado físico pode arrefecer. Caso contrário, a retenção de estoques por parte dos agricultores tende a se intensificar, mantendo os custos de ração elevados para as granjas de suínos e aves.

A comercialização de suínos nas próximas semanas será balizada pela proximidade da virada de mês, período que historicamente registra maior liquidez no mercado interno. Contudo, sem um recuo nos preços do cereal em Campinas, o setor terminará o primeiro semestre de 2026 com um balanço financeiro mais apertado do que o planejado no início do ciclo produtivo.

A instabilidade no mercado internacional de energia, potencializada pelo bloqueio de rotas marítimas no Golfo, adiciona um prêmio de risco ao preço do milho. O grão brasileiro, sendo um importante item da pauta exportadora, acaba refletindo essa valorização global, mesmo em transações destinadas ao consumo interno nas regiões de alta concentração de granjas.