O lado oculto do comércio com a China
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Publicado em 23/03/2026 10h59

O lado oculto do comércio com a China

O movimento segue uma lógica de integração vertical iniciada na última década.
Por: Leonardo Gottems

O papel do Brasil no comércio global de soja vai além da simples exportação de commodities e envolve uma dinâmica mais complexa de organização da cadeia produtiva. A avaliação é de Carlos Alberto Tavares Ferreira, estrategista e fundador da Carbon Zero, que aponta uma leitura equivocada sobre a relação entre Brasil e China nesse mercado.

Segundo a análise, a China absorve entre 70% e 80% das exportações brasileiras de soja, enquanto empresas ligadas ao país asiático ampliam presença em diferentes etapas do setor. A COFCO Corporation já movimenta de 10% a 15% das exportações de grãos do Brasil, consolidando posição entre as principais tradings em operação no país. Ao mesmo tempo, a China Merchants Port mantém participações relevantes em terminais portuários na América Latina, incluindo ativos estratégicos em território brasileiro.

O movimento segue uma lógica de integração vertical iniciada na última década. A aquisição da Nidera e da Noble Group Agri, concluída em 2017, e a compra da Syngenta por US$ 43 bilhões pela ChemChina são exemplos dessa estratégia, que conecta trading, logística, infraestrutura e tecnologia agrícola.

Na prática, o produtor brasileiro permanece responsável pelo cultivo e parte do financiamento da produção, mas depende de estruturas que envolvem capital estrangeiro para comercialização e escoamento. O resultado é uma participação ativa na produção, mas sem controle sobre o sistema como um todo.

Os investimentos chineses em infraestrutura, que superam US$ 20 bilhões em portos ao redor do mundo, além do avanço sobre corredores logísticos e projetos como a ferrovia bioceânica entre Brasil e Peru, reforçam essa integração. Embora contribuam para reduzir custos, esses projetos também ampliam a influência externa sobre a cadeia.

Esse cenário impacta a formação de preços, já que a concentração de funções em um único agente tende a estruturar o mercado, reduzindo sua dinâmica plenamente competitiva. Para o estrategista, o principal desafio do Brasil está no diagnóstico dessa relação, ainda vista como simples exportação, quando na realidade representa a inserção em uma cadeia global controlada por outro Estado.