Porque os produtores de grãos estão entrando na pecuária de corte?
Publicado em 28/03/2026 13h34

Porque os produtores de grãos estão entrando na pecuária de corte?

A pecuária de ciclo curto como o confinamento, semiconfinamento, RIP e TIP são os sistemas adotados.
Por: Guilherme Augusto Vieira

Este artigo nasce da crescente demanda de agricultores — em especial produtores de soja e milho — que buscam diversificar ou integrar suas atividades com a pecuária de corte. Ao longo das minhas consultorias, notei um interesse latente não apenas nos sistemas tradicionais de confinamento e semiconfinamento, mas, sobretudo, na viabilidade da Recria Intensiva a Pasto (RIP) e da Terminação Intensiva a Pasto (TIP) como estratégias de aceleração do ciclo produtivo.

Minha motivação para aprofundar esses estudos também foi impulsionada por viagens técnicas às principais regiões produtoras de grãos. Ao ministrar palestras sobre pecuária intensiva para grupos de produtores, percebi uma demanda latente por maior clareza sobre a lógica do mercado e os processos produtivos. Essa vivência foi o catalisador para que eu sistematizasse esse conhecimento e editasse o Manual específico. www.semiconfinamento.com.br 

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Provavelmente o título nos remete as bases conceituais do sistema lavoura-pecuária. Entretanto o objetivo do artigo é elucidar quais os verdadeiros motivos, técnicos e econômicos, que levam os produtores de grãos entrarem na produção de pecuária de corte.

Segundo Klutchcouski et al (2003), O sistema de integração Lavoura-Pecuária (ILP) é uma estratégia de produção que integra culturas anuais e pecuária, no mesmo espaço, em consórcio, sucessão ou rotação, e busca potencializar a sinergia entre os componentes pecuária e lavoura.

Normalmente, a integração Lavoura-Pecuária é implantada em duas circunstâncias: quando a lavoura é cultivada em áreas de pastagens ou quando a pastagem é introduzida em áreas de lavoura. O sistema mais conhecido é a consorciação soja ou milho com o Brachiária ruziziensis, muito utilizado pelos produtores de grãos.

Kluthcouski et al (2003) aponta vários benefícios ao utilizar o sistema lavoura-pecuária, a se destacar:

  1. Benefícios da lavoura para a pecuária: Rapidez e economicidade para pastagem tornando mais fácil a recuperação das pastagens além de que a formação de pastagem após o período da atividade agrícola é mais rápida e a custos menores;
  2. Benefícios da pecuária para a lavoura: Recuperação física, química e biológica do solo; Cobertura do solo.

Várias são as vantagens do Sistema de Integração Lavoura - Pecuária: aumento da produção de grãos e carnes, redução de custos de produção, produtores mais capitalizados, uso eficiente da terra e principalmente a tão sonhada sustentabilidade da agropecuária.

Voltando ao objetivo deste artigo, muitos produtores vêm integrando a pecuária de ciclo curto em suas propriedades, aproveitando a janela entre safras para o pastejo. Essa estratégia otimiza o uso da terra, permitindo que as áreas de grãos recebam pastagens temporárias antes de retornarem ao cultivo agronômico principal.

Entre as produções de ciclo curto destacam-se : o semicoonfinamento, TIP, RIP[2] e o confinamento de bovinos.

Vale enfatizar , que há muito tempo , os pecuaristas ( de leite e confinadores) adotam a “integração” lavoura- pecuária, citando o caso do plantio de milho/sorgo para produção de silagens e com ótimos benefícios para a nutrição animal.

Mas o que é semiconfinamento, TIP, RIP e confinamento? qual diferença entre estes sistemas?

De acordo com Trivellato (2018), entende-se por semiconfinamento como o sistema de produção intensiva de bovinos que consiste na engorda de animais onde são utilizadas pastagens como alimentos volumosos e o fornecimento de ração concentrada nos cochos dispostos nos piquetes ou invernadas.

Atualmente, a pecuária de corte começou a adotar a RIP (Recria Intensiva a Pasto) e a TIP (Terminação Intensiva a Pasto).

A Recria Intensiva a Pasto (RIP) é um programa de suplementação estratégica (consiste no uso de rações e proteinados tendo o pasto como volumoso) que visa acelerar o desenvolvimento de animais jovens. 

Aplicada na fase pós-desmama (geralmente dos 7-8 meses de idade, com 180-210 kg de peso vivo) até o período que antecede a terminação aproximadamente 350 kg de peso corporal (variável por mercado e região) (Resende & Siqueira,2011). A RIP é uma resposta direta à alta demanda por animais de qualidade para engorda e reprodução.

A RIP foi desenvolvida precisamente para quebrar este ciclo, encurtando o tempo de permanência no campo e acelerando a produção.

A Terminação Intensiva a Pasto (TIP) é uma estratégia de engorda que adapta os princípios e técnicas de produção do confinamento tradicional para o ambiente de pastagem. Essencialmente, é um processo de terminação animal realizado no pasto, mas com uma intervenção nutricional intensiva.

Neste sistema, o foco está em fornecer aos animais rações concentradas balanceadas que atendam às suas altas exigências nutricionais. O pasto, por sua vez, atua como a principal fonte de fibra, essencial para a manutenção da saúde e do bom funcionamento ruminal. A TIP exige, portanto, a utilização de piquetes com alta taxa de lotação, um manejo sanitário rigoroso, o uso de rações de alta qualidade e animais com boa genética.

Os conceitos abordados focam na produção intensiva e na aceleração do ciclo de engorda bovina, fundamentando-se no manejo estratégico de pastagens e no uso preciso de rações. Pode-se afirmar que a Recria Intensiva a Pasto (RIP) e a Terminação Intensiva a Pasto (TIP) são evoluções diretas do semiconfinamento, diferenciando-se pela adoção de altas taxas de lotação e por um fornecimento mais elevado de concentrado em relação ao peso vivo do animal.

Figura 1. Exemplo de Semiconfinamento. Foto: Arquivo pessoal

A figura evidencia um semiconfinamento com pastagens de ótima qualidade e o fornecimento de rações para os animais.

Figura 2. Novilhas ½ sangue Angus em RIP

A integração da soja ou milho com a B. ruziziensis tem sido amplamente utilizada para intensificar a produção a pasto. Esse sistema permite que, imediatamente após a colheita do grão, a forrageira esteja disponível para a entrada dos animais.

No planejamento dos piquetes, o produtor deve considerar aspectos essenciais do manejo pecuário, tais como: índices zootécnicos, ganho de peso diário (GMD) e as categorias animais. Além disso, é crucial formular dietas específicas para cada fase, dimensionar corretamente a área e prever a instalação estratégica de bebedouros e cochos.

O confinamento, segundo Gusmão & Vieira (2012), é o sistema de produção intensiva de bovinos em que lotes de animais são encerrados em piquetes ou currais com área restrita, e onde os alimentos e água são fornecidos em cochos.

O “curral” de confinamento tem características próprias como área/animal, construções e equipamentos para o confinamento visando a boa produtividade do sistema.

Além das instalações, o confinamento exige equipamentos (para produzir e distribuir rações e volumosos) e pessoal bem capacitado. Tanto para o confinamento quanto para a pecuária de ciclo curto deve-se colocar animais com potencial de ganho de peso além de conhecimento de mercado.

A vantagem do confinamento em relação a produção intensiva a pasto é a maior produção de animais por área, aumento do giro do capital da propriedade, embora necessite de maiores investimentos em instalações e equipamentos.

A figura 3. Confinamento de bovinos. Foto: Arquivo pessoal

Quais as vantagens de se adotar a produção intensiva a pasto ou confinamento em fazendas produtoras de grãos?

  • ·         A primeira delas é a disponibilidade dos grãos (principalmente o milho) para a produção de rações e silagens, já que a nutrição corresponde entre 70 -85% do custo de produção;
  • ·         Otimização do uso de maquinários presentes na propriedade, no qual poderão ser utilizados fora do período produtivo agrícola;
  • ·         No caso do confinamento serão utilizadas áreas de menor tamanho (cerca de 2.000m2 por curral de 100 animais), não comprometendo as áreas de produção de grãos;
  • ·         Para a produção intensiva a pasto serão utilizadas pastagens advindas da consorciação entre milho/soja x forrageiras gerando todos os benefícios enumerados anteriormente;
  • ·         Atividade produtiva fora do período agrícola, pois o confinamento é realizado no período seco e a maioria dos produção intensiva a pastos são realizados no final do período chuvoso e início do período seco;
  • ·         Utilização dos resíduos orgânicos (esterco) para usos agronômicos. Ao visitar várias fazendas de grãos, os produtores relataram que o interesse no confinamento é o esterco, pois gera economia no uso de fertilizantes além da recomposição da matéria orgânica e melhoria da qualidade do solo.

Figura 4. Esterco de confinamento em fazendas de grãos. Foto: Arquivo pessoal

Ao concluir este artigo, respondo à pergunta de partida com a resposta de um produtor supersatisfeito com o confinamento: “além de gerar renda para a fazenda com a comercialização dos animais, os benefícios para o solo são enormes, além de aproveitar bem o esterco”.

O leitor também conheceu os sistemas de produção de pecuária intensiva como o semiconfinamento, a RIP, a TIP e o confinamento.

Penso que a entrada dos empresários agrícolas na produção pecuária de corte vem agregar em todos os sentidos, pois estes empresários chegam com mentalidade de produção em escala, além de movimentar o mercado como um todo.

Entretanto, vale lembrar que produção intensiva de pecuária de corte exige conhecimentos técnicos mais apurados, investimentos em equipamentos e instalações, além de conhecimento da lógica do mercado de pecuária de corte.

Até a próxima oportunidade.

Caso deseje, entre em contato com autor para ter acesso as referências bibliográficas.

 

Guilherme Augusto Vieira é Médico Veterinário, Doutor em História das Ciências, autor dos Manuais Semiconfinamento e Confinamento, atualmente é gestor da Plataforma www.semiconfinamento.com.br e ministra cursos e treinamentos na VeteAgroGestão. Conteudista do Giro do Boi, Canal Rural, Agrolink, O Presente Rural e Portal Agroin. Contatos com o autor:  Instagram: @farmacianafazenda guilherme@farmacianafazenda.com.br.