Nanotecnologia brasileira cria sementes de soja de alta performance
Publicado em 09/04/2026 10h53

Nanotecnologia brasileira cria sementes de soja de alta performance

Pesquisadores da USP Ribeirão Preto desenvolveram um revestimento com nanofibras que acelera a germinação e o arranque inicial da soja no campo.
Por: Wisley Torales

O agronegócio brasileiro está prestes a vivenciar uma transformação impulsionada pela nanotecnologia. Pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP), desenvolveram um método inovador para o tratamento de sementes. A técnica utiliza nanofibras de acetato de celulose para revestir os grãos de soja, garantindo que o desenvolvimento inicial das plantas seja mais rápido e uniforme.

Diferente dos tratamentos industriais de sementes (TSI) convencionais, que muitas vezes aplicam produtos químicos de forma superficial, a nova abordagem utiliza um processo físico-químico avançado. As nanofibras são produzidas por meio da eletrofiação, uma tecnologia que transforma soluções poliméricas em estruturas microscópicas. Essas fibras funcionam como uma rede de proteção e entrega programada de nutrientes e hormônios vegetais.

Durante a fase de fabricação das nanofibras, os cientistas incorporaram nanopartículas de óxido de zinco e ácido giberélico. O zinco é um micronutriente fundamental para a síntese de proteínas e o metabolismo das plantas, enquanto o ácido giberélico atua como um potente fitormônio, responsável por disparar o processo de quebra de dormência e alongamento celular. A combinação desses elementos no revestimento garante que a semente receba o estímulo necessário no momento exato da semeadura.

A grande inovação reside na liberação controlada. As nanofibras, após serem fragmentadas e dispersas em água, são pulverizadas sobre as sementes. Uma vez no solo, essas estruturas liberam os compostos ativos de maneira gradual. Isso evita o desperdício de insumos e protege a semente de condições adversas no estágio mais sensível do ciclo produtivo, que é o arranque inicial.

DADOS DA PESQUISA

  • Tecnologia: Eletrofiação (Nanofibras de acetato de celulose).

  • Compostos: Óxido de zinco e Ácido Giberélico.

  • Período de teste: 7 dias em ambiente controlado.

  • Resultado: Aumento na velocidade de germinação e vigor das plântulas.

Nos ensaios laboratoriais conduzidos em Ribeirão Preto, as sementes tratadas com a tecnologia apresentaram uma evolução superior às sementes do grupo controle. O monitoramento diário ao longo de uma semana comprovou que as plântulas não apenas emergiram mais rápido, como também apresentaram um sistema radicular e aéreo mais robusto. Esse vigor inicial é estratégico para que a lavoura consiga fechar as entrelinhas precocemente, reduzindo a competição com plantas daninhas.

A segurança biológica também foi uma prioridade no desenvolvimento do projeto. A equipe de pesquisadores avaliou a possível toxicidade dos nanomateriais nas sementes de soja. Os resultados indicaram que o acetato de celulose e as concentrações de zinco utilizadas são totalmente compatíveis com a fisiologia do grão, não causando danos celulares ou deformidades no crescimento. Essa compatibilidade técnica é um passo decisivo para a futura comercialização da tecnologia.

A aplicação prática do sistema é simplificada. A dispersão das fibras curtas em água permite que o produtor ou a indústria de sementes utilize equipamentos de pulverização já existentes no mercado. O método reduz a necessidade de grandes volumes de calda e garante uma cobertura homogênea, ponto que muitas vezes é um gargalo nos tratamentos tradicionais que utilizam polímeros mais densos.

Um dos maiores desafios da equipe foi ajustar os parâmetros da eletrofiação para garantir que as fibras mantivessem sua integridade estrutural após a fragmentação. O equilíbrio entre o diâmetro das fibras e a capacidade de carga dos ativos foi refinado exaustivamente até atingir a máxima eficiência. O sucesso dessa etapa garantiu a estabilidade necessária para que a tecnologia possa ser escalada para o setor industrial.

O potencial da descoberta não se restringe apenas à soja. Os pesquisadores acreditam que a metodologia de revestimento por nanofibras possa ser adaptada para outras grandes culturas, como o milho e o algodão, ou até mesmo para hortaliças de alto valor agregado. A versatilidade do acetato de celulose permite que diferentes "coquetéis" de nutrientes e defensivos biológicos sejam inseridos nas fibras, de acordo com a necessidade de cada bioma brasileiro.

Atualmente, o projeto já avançou para a etapa de proteção intelectual. O pedido de patente foi protocolado, assegurando os direitos sobre a inovação desenvolvida em solo nacional. As próximas fases incluem a validação em campos experimentais sob condições reais de clima e solo, além da busca por parcerias com empresas do setor de biotecnologia agrícola para levar a solução ao mercado.

O desenvolvimento da tecnologia ratifica a importância da pesquisa acadêmica aplicada para a competitividade do agronegócio nacional. Ao reduzir o tempo de germinação e fortalecer as plântulas nos primeiros dias de vida, a técnica da USP oferece uma ferramenta poderosa para mitigar riscos climáticos e aumentar o teto produtivo das lavouras de soja em todo o Brasil.

A tecnologia agora segue para ajustes finos de aplicação em larga escala, visando a integração com sistemas de plantio direto.