Edgar Madruga alerta para impacto da reforma no caixa das fazendas
Publicado em 10/04/2026 15h38

Edgar Madruga alerta para impacto da reforma no caixa das fazendas

O tributarista Edgar Madruga detalhou os impactos contábeis da reforma na Expogrande, destacando hoje (10) os riscos ao fluxo de caixa e o novo sistema de créditos.
Por: Wisley Torales

O agronegócio brasileiro está diante de uma revolução em sua forma de prestar contas ao Fisco. Durante sua apresentação no Tatersal II da Acrissul, o especialista Edgar Madruga enfatizou que a transição para o novo modelo tributário, iniciada em janeiro de 2026, não é apenas uma mudança de alíquotas, mas uma alteração profunda na cultura de gestão das propriedades rurais.

O ponto de maior atenção levantado pelo palestrante foi a implementação do sistema de créditos condicionados ao pagamento. Na sistemática da CBS e do IBS, o produtor rural só poderá aproveitar o crédito tributário de um insumo ou serviço se o fornecedor tiver efetivamente recolhido o imposto. Essa regra transforma a escolha de parceiros comerciais em uma decisão estratégica de sobrevivência financeira.

Madruga explicou que a era da informalidade ou do "ajuste depois" acabou. A partir de agora, a contabilidade precisa ser realizada em tempo real, conectada diretamente aos sistemas digitais do governo. O palestrante utilizou a expressão "quem chega primeiro bebe água limpa" para incentivar a adaptação imediata aos novos layouts e exigências do SPED (Sistema Público de Escrituração Digital).

ALERTA DE CAIXA: O mecanismo de "split payment" (pagamento cindido) fará com que o valor do imposto seja retido automaticamente no momento da liquidação da fatura, o que pode drenar a liquidez imediata das operações agropecuárias se não houver planejamento.

Outro tema amplamente discutido foi o impacto brutal que a reforma terá na precificação dos produtos. Madruga demonstrou, através de exemplos práticos, que o imposto "por fora" altera a percepção de valor para o cliente e exige um controle de custos muito mais fino por parte do produtor. Sem uma planilha de custos integrada à contabilidade tributária, a margem de lucro pode ser corroída silenciosamente.

A transição longa, que se estenderá até 31 de dezembro de 2032 com a convivência entre o antigo ICMS e os novos tributos, foi apontada como um período de alta complexidade. Durante esses anos, o produtor terá de manter dois sistemas de controle ativos, o que aumenta a carga de trabalho administrativo e o risco de erros nas declarações acessórias.

O especialista também abordou a obsolescência de modelos de negócios baseados em benefícios fiscais que serão extintos. Muitas estruturas societárias atuais perderão o sentido econômico com a unificação tributária no destino (onde o consumo ocorre) em vez da origem. Isso exige que as fazendas reavaliem suas sedes e centros de distribuição para otimizar a logística tributária.

A tecnologia foi colocada como o grande fiel da balança. Edgar Madruga salientou que softwares de gestão que não estiverem preparados para o cálculo automático e instantâneo da CBS/IBS tornarão a operação rural inviável. A integração entre o campo, o escritório e o contador deve ser total para garantir que nenhum crédito seja perdido por falha documental ou de prazo.

O encerramento da palestra focou na necessidade de auditorias internas frequentes. O palestrante recomendou que os produtores busquem assessoria especializada para realizar um diagnóstico de conformidade fiscal, mapeando onde estão as maiores vulnerabilidades da propriedade frente à Lei Complementar 214/2025 e suas regulamentações.