
A segurança energética retornou ao topo da agenda política e econômica da União Europeia (UE) diante de um cenário de persistentes incertezas no fornecimento global. A volatilidade dos preços internacionais do petróleo e as tensões geopolíticas em rotas de abastecimento tradicionais forçam o bloco europeu a acelerar sua transição para fontes alternativas. Nesse contexto, o Brasil se posiciona como um parceiro estratégico, oferecendo soluções prontas para escala industrial.
Em entrevista recente à agência Lusa, em Bruxelas, o embaixador brasileiro junto à União Europeia, Pedro Miguel da Costa e Silva, destacou que a cooperação bilateral pode avançar em frentes que vão muito além da simples exportação de matéria-prima. O diplomata ressaltou o amadurecimento da matriz energética brasileira, que se destaca mundialmente pela alta participação de fontes renováveis, como a biomassa, além da expansão acelerada de projetos de hidrogênio verde.
Os biocombustíveis surgem como a alternativa mais imediata e tecnicamente viável para o mercado europeu. O Brasil possui uma experiência de cinco décadas no uso do etanol em larga escala, sustentada por uma frota de veículos flex-fuel que é referência global em descarbonização urbana. Para os negociadores brasileiros, este modelo de sucesso é perfeitamente adaptável à realidade europeia, que busca reduzir a dependência de fósseis no transporte rodoviário.
DESTAQUE DO MERCADO: O Brasil é atualmente o maior produtor mundial de etanol de cana-de-açúcar, com uma produção que superou os 35 bilhões de litros na última safra, consolidando o setor sucroenergético como um gigante da economia de baixo carbono.
Outra fronteira de oportunidade é o setor aéreo. O combustível sustentável de aviação, amplamente conhecido pela sigla SAF (Sustainable Aviation Fuel), tornou-se uma exigência regulatória na Europa para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Com a implementação do programa brasileiro "Combustível do Futuro", o Brasil se prepara para ser um dos principais hubs globais de produção de SAF, utilizando como base o etanol e óleos vegetais.
Apesar do potencial técnico inquestionável, a entrada do etanol brasileiro no território europeu ainda esbarra em obstáculos significativos. Barreiras regulatórias e critérios ambientais rigorosos, muitas vezes interpretados como protecionismo por parte dos produtores locais de beterraba e trigo, dificultam a fluidez comercial. O embaixador enfatizou a necessidade de um diálogo técnico para alinhar as certificações de sustentabilidade, garantindo que o produto nacional seja reconhecido por sua baixa pegada de carbono.
As disputas com produtores locais europeus são históricas e envolvem questões de subsídios e subsistência agrícola regional. No entanto, a diplomacia brasileira sinaliza que a proposta não se limita ao envio de navios carregados de combustível. Existe uma disposição clara para o desenvolvimento de projetos conjuntos de transferência de tecnologia e investimentos em unidades produtivas dentro do próprio continente europeu, utilizando o conhecimento brasileiro em fermentação e destilação.
DADO ESTRATÉGICO: O RenovaBio, política nacional de biocombustíveis do Brasil, é considerado um dos mecanismos de certificação mais robustos do mundo, rastreando a emissão de carbono desde o plantio até a bomba de combustível.
A indústria sucroenergética nacional passou por uma modernização intensa nos últimos anos. Além da cana, o etanol de milho ganhou espaço, garantindo uma oferta estável durante todo o ano e permitindo que o Brasil mantenha contratos de exportação de longo prazo. Essa previsibilidade de oferta é o que a Europa mais necessita neste momento de instabilidade nos preços do gás natural e do diesel mineral.
As negociações em Bruxelas também passam pelo setor de logística e infraestrutura. A adaptação de portos e terminais europeus para receber volumes maiores de biocombustíveis líquidos é uma das pautas discutidas em fóruns de cooperação técnica. O Brasil defende que o uso de infraestrutura já existente para combustíveis líquidos facilita a transição energética, exigindo menos investimentos do que a eletrificação total da frota no curto prazo.
Empresas europeias de grande porte, especialmente dos setores de energia e logística, já iniciaram movimentos de aproximação com usinas brasileiras. Parcerias para a produção de biometano a partir de resíduos da cana-de-açúcar (vinhaça e torta de filtro) também estão no radar. Esse gás renovável pode substituir diretamente o gás natural em processos industriais e no aquecimento doméstico, setores onde a Europa enfrenta maior vulnerabilidade.
O hidrogênio verde, produzido a partir de eletrólise alimentada por fontes renováveis, é a aposta para a próxima década. O Brasil possui um dos custos de produção mais competitivos do mundo para essa fonte, graças à abundância de ventos no Nordeste e incidência solar em todo o território. A cooperação em Bruxelas visa estabelecer corredores comerciais que levem esse hidrogênio em forma de amônia verde para os centros industriais da Alemanha e França.
O posicionamento brasileiro é de que a transição energética justa deve ser inclusiva e aproveitar as vocações regionais. Ao oferecer biocombustíveis, o Brasil não apenas ajuda a Europa a cumprir suas metas climáticas, mas também estabiliza os preços de energia para o consumidor final europeu. A diversificação de fornecedores é o caminho mais seguro para evitar novas crises de desabastecimento no bloco.
A implementação plena do acordo entre Mercosul e União Europeia continua sendo o pano de fundo de todas as discussões. O capítulo de energia do acordo pode acelerar a eliminação de tarifas para o etanol e outros derivados da biomassa, criando um mercado transatlântico de energia limpa sem precedentes. O Brasil aguarda agora os próximos passos legislativos do Parlamento Europeu para consolidar essa liderança verde.
A produção de etanol no Brasil utiliza tecnologia de segunda geração (E2G), que permite produzir até 40% mais combustível com a mesma área plantada, utilizando o bagaço da cana.