Bioeconomia no Pará movimenta R$ 13,5 bilhões com apoio da Embrapa
Publicado em 28/04/2026 06h00

Bioeconomia no Pará movimenta R$ 13,5 bilhões com apoio da Embrapa

Iniciativas agroflorestais no Pará recuperam pastagens degradadas, unindo produção de cacau e mandioca à geração de créditos de carbono hoje.
Por: Redação

Em Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, uma antiga área de pastagem degradada serve agora como modelo de produtividade. A fazenda São Francisco, operada pela Belterra Agroflorestas, utiliza Sistemas Agroflorestais (SAFs) para produzir cacau sob a sombra de bananeiras e espécies florestais. Esse modelo rompe com a lógica da degradação e estabelece um novo padrão para o uso da terra na Amazônia.

A iniciativa conta com suporte financeiro da Vale e do BNDES, por meio do Fundo Clima. O foco vai além da colheita; trata-se de conectar pequenos e médios produtores ao mercado global de créditos de carbono. Ao transformar o passivo ambiental em ativo produtivo, as agroflorestas garantem uma fonte de receita diversificada e resiliente às variações do clima.

POTENCIAL ECONÔMICO: A bioeconomia da sociobiodiversidade no Pará movimenta R$ 13,5 bilhões por ano, envolvendo cadeias ligadas aos rios, florestas e agricultura familiar.

O ecossistema de inovação na região é robusto. Segundo a plataforma Jornada Amazônia, existem 789 startups operando com foco em impacto positivo na floresta. Essas empresas de tecnologia buscam soluções para manter a biodiversidade enquanto otimizam a geração de renda. O movimento sinaliza que a conservação tornou-se um negócio viável e lucrativo para o agronegócio.

CIÊNCIA E MELHORAMENTO GENÉTICO

A Embrapa atua na linha de frente com mais de 40 projetos voltados à bioeconomia amazônica. O trabalho abrange desde o melhoramento genético do açaí até o desenvolvimento de cadeias sustentáveis para o guaraná e a castanha. O pesquisador Alexandre Hoffmann ressalta que manter a floresta em pé sustenta o balanço hídrico necessário para a agricultura de todo o país.

A pesquisa agropecuária brasileira também avança em projetos de carne e grãos com balanços favoráveis de carbono. O objetivo é assegurar que a produção de proteína e sementes ocorra com baixa emissão de gases de efeito estufa. Essa abordagem técnica assegura a competitividade do produto paraense em mercados internacionais que exigem rastreabilidade ambiental.

A FORÇA DA AGROECOLOGIA

Em Parauapebas, a agroecologia ganha força no assentamento Palmares II. Cerca de 33 famílias da associação Aprovipar investem no cultivo de mandioca sem o uso de defensivos químicos. A inauguração da Casa de Farinha local permite o beneficiamento da produção, transformando a raiz em diversos tipos de farinha com maior valor agregado para o mercado regional.

LOGÍSTICA: "Não adianta produzir se não for possível beneficiar ou escoar a produção. Parauapebas consome derivados de mandioca que vêm de fora", alerta Roberto de Almeida Menezes.

A Vale, por meio de sua diretoria de soluções baseadas na natureza, observa o mercado de restauração florestal como um setor em expansão. Patrícia Daros pontua que a Belterra tornou-se uma das maiores empresas de restauração do país em apenas cinco anos. O modelo demonstra que a integração entre grandes corporações e a agricultura familiar gera resultados operacionais sólidos.

As projeções para a bioeconomia no Brasil são superlativas. A Associação Brasileira de Bioinovação (Abbi) estima que o setor movimente US$ 108 bilhões até 2050. Esse crescimento depende da transformação de ativos ambientais em componentes de atividades econômicas, gerando ciclos de prosperidade que respeitem as tradições locais e a segurança alimentar.

DESAFIOS E COORDENAÇÃO ESTATAL

Apesar dos avanços, o pesquisador Pedro Abel Vieira, da Embrapa, sinaliza a necessidade de maior coordenação. Ele argumenta que os projetos atuais são heterogêneos. Para que a bioeconomia ajude a mitigar a crise climática, é necessária a presença institucional do Estado para dar direção e previsibilidade aos investimentos na região amazônica.

O senso de urgência é sustentado por estudos científicos. Publicações na revista Nature indicam que a Amazônia pode atingir o "ponto de não retorno" em 2050. Caso a floresta perca sua capacidade de regeneração, o regime de chuvas que alimenta o agronegócio no Centro-Oeste e Sul do Brasil será severamente impactado, prejudicando a produtividade nacional.

O governo federal lançou o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio) para integrar essas iniciativas. A meta é consolidar uma economia inclusiva que valorize o conhecimento tradicional e promova a descarbonização industrial. O agronegócio sustentável no Pará aparece como a peça-chave para converter o potencial da biodiversidade em desenvolvimento socioeconômico real.