
Plantação de trigo, foto tirada em março de 2026 na Fazenda em Esmeralda/RS
O trigo gaúcho tem se destacado no mercado nacional, não apenas pela sua qualidade, mas também pela capacidade de adaptação às adversidades climáticas. É neste contexto que a pesquisa em melhoramento genético se torna essencial para desenvolver cultivares que ofereçam maior tolerância a estresses hídricos e térmicos, especialmente diante das previsões de mudanças climáticas que afetam a produção agrícola.
Com as previsões do INMET indicando temperaturas acima da média e chuvas irregulares entre abril e junho de 2026, é crucial que os pesquisadores se concentrem em criar variedades de trigo que possam resistir a essas condições adversas. Para Márcio Só e Silva, agrônomo e CEO da Semevinea, de Ernestina/RS, “a genética avançada é o elo à produtividade sustentável. Cada cultivar nasce para responder aos desafios do clima”.
A importância da resiliência se torna ainda mais evidente quando se considera o impacto da cadeia produtiva de trigo no Rio Grande do Sul, onde aproximadamente 200 mil pessoas estão diretamente ligadas à cultura e dependem da manutenção da produtividade para sustentar empregos e renda. O estado gaúcho responde por mais de 40% da produção nacional e, em anos de clima favorável, pode superar 3 milhões de toneladas. No entanto, os custos de manejo tendem a aumentar diante de cenários climáticos desafiadores, tornando vital a inovação genética para garantir a produtividade.
Resultados de pesquisa mostram que o aumento da precipitação no trimestre setembro-novembro favorece doenças como giberela e germinação pré-colheita, enquanto o aumento das temperaturas mínimas intensifica ciclos de pragas e plantas daninhas. Segundo o pesquisador Gilberto Cunha, da Embrapa, “a triticultura se manterá se houver cultivares resistentes e manejo adaptado às novas realidades climáticas.”
No cenário nacional, a cadeia produtiva do trigo gera mais de 1 milhão de empregos e movimenta cerca de R$ 25 bilhões anualmente. Segundo dados da Conab, a safra 2025/26 deve alcançar 6,6 milhões de toneladas, uma queda de 16% em relação ao ano anterior, enquanto o consumo interno se mantém em torno de 12 milhões de toneladas, reforçando a dependência de importações, estimadas em 6,7 milhões de toneladas até julho de 2026. O presidente da Abitrigo (Associação Brasileira da Indústria do Trigo), Rubens Barbosa, tem falado que “o Brasil precisa investir em pesquisa e logística para reduzir a dependência externa. O trigo é estratégico para a segurança alimentar.”
O custo de produção no Paraná varia entre R$ 55 e R$ 70 por saca, com produtividade média nacional de 55 sacas por hectare, mas podendo superar 70 sc/ha em lavouras bem manejadas. Esse contraste evidencia como o país, de dimensões continentais, enfrenta diferentes desafios climáticos e de rentabilidade, especialmente quando se compara o trigo gaúcho ao trigo tropical cultivado no Cerrado, em estados como Goiás e Minas Gerais, onde a competição com soja e milho é intensa.
O Fórum do Trigo Tropical, realizado em Brasília-DF, na segunda semana de abril, abordou justamente esses avanços e a expansão da produção em novas regiões, enfatizando a importância da adaptação às diferentes condições do país. Para a Abitrigo, presente ao encontro, “_a diversificação regional é uma oportunidade, mas exige políticas públicas consistentes e apoio técnico para que o trigo tropical seja competitivo_.” E ponderando sobre a atual realidade, Márcio Só e Silva, agrônomo e CEO da Semevinea, afirma que o cenário para o primeiro semestre de 2026 é de consolidação da genética avançada como diferencial competitivo. "A resiliência das cultivares frente às variações climáticas e a busca por sustentabilidade são fatores que vão definir os próximos meses”, ressalta, apontando como exemplo a realidade na experimentação das suas cultivares que têm obtido resultados satisfatórios em anos de impacto climático desfavorável.
E dentro de todo esse cenário, o fato é que a pesquisa em melhoramento genético é crucial para a sobrevivência do trigo gaúcho e nacional e para o fortalecimento da agricultura brasileira, viabilizando um futuro mais sustentável e produtivo para a triticultura.