Embrapa lidera projeto mundial para padronizar balanço de carbono
Publicado em 30/04/2026 02h50

Embrapa lidera projeto mundial para padronizar balanço de carbono

Embrapa e FAO lideram projeto global para criar métricas de emissões na aquicultura e submeter ao IPCC, preenchendo lacuna na contabilidade climática.
Por: Redação

A ausência de diretrizes específicas para mensurar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) na aquicultura nos inventários nacionais motivou a criação de um projeto internacional estratégico. A iniciativa é liderada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e conta com a coordenação técnica da Embrapa Meio Ambiente. O foco principal é desenvolver e propor ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) uma metodologia inédita para o setor.

Atualmente, o setor carece de métricas confiáveis para reportar emissões e remoções, o que dificulta a orientação de políticas públicas eficazes. Sem esses dados, torna-se complexo avaliar o impacto real das tecnologias adotadas nas propriedades rurais ou validar a sustentabilidade da produção. Fernanda Sampaio, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente que coordena o projeto, aponta que essa carência técnica é um dos principais limitadores para o crescimento ordenado da atividade.

As nações signatárias da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima já utilizam guias detalhados para outras atividades agropecuárias. Pecuária e agricultura possuem protocolos consolidados para o reporte de carbono, mas a aquicultura permanece em uma zona cinzenta. Mesmo em potências produtoras como o Brasil e a China, não existem orientações padronizadas para realizar esse cálculo de forma consistente.

DESTAQUE TÉCNICO: A falta de padrões internacionais limita a inserção da aquicultura em políticas climáticas e dificulta o acesso a mecanismos de financiamento e créditos de carbono.

PRODUÇÃO RECORDE E FRAGILIDADE TÉCNICA

A urgência por uma metodologia oficial cresce na mesma proporção em que o setor se expande pelo mundo. De acordo com o relatório "O Estado Mundial da Pesca e da Aquicultura" (SOFIA), da FAO, a atividade ultrapassou a pesca de captura na produção global de animais aquáticos pela primeira vez na história. Em 2022, o volume atingiu 130,9 milhões de toneladas, o que representa 51% do total produzido globalmente.

Esse avanço confirma o papel determinante da aquicultura na segurança alimentar, mas expõe a fragilidade das ferramentas ambientais disponíveis. Sem diretrizes consolidadas pelo IPCC, sistemas como a piscicultura em viveiros escavados e o cultivo de bivalves — como ostras e mexilhões — seguem à margem das contabilidades climáticas oficiais. Isso cria um vazio técnico que impede a comparabilidade entre diferentes cadeias de proteína animal.

A criação desses inventários é fundamental para garantir dados tecnicamente robustos ao longo do tempo. Eles servem de base para o estabelecimento de metas e para o acesso a mercados internacionais cada vez mais exigentes em relação à pegada ambiental. O projeto coordenado pela Embrapa busca dar transparência ao impacto do setor e posicioná-lo de forma estratégica nas políticas de mitigação.

SISTEMAS SOB MONITORAMENTO

Para preencher essa lacuna, a Embrapa articula um grupo de especialistas de cinco países: Brasil, China, Estados Unidos, Uruguai e Zimbábue. O objetivo é entregar uma proposta técnica que padronize os métodos de mensuração, incluindo fatores de emissão, incertezas e a capacidade de reproduzir as estimativas em escala global. O trabalho foca especialmente em viveiros escavados para peixes e camarões, além do cultivo marinho de moluscos.

O uso de tecnologias avançadas, como o sensoriamento remoto e a modelagem preditiva, será a base para suprir a falta de dados em regiões com pouca informação. Diferentes unidades da Embrapa possuem funções específicas nesse processo. A Embrapa Cerrados e a Embrapa Agropecuária Oeste trabalham na caracterização dos viveiros em diversas latitudes, enquanto a Embrapa Territorial oferece suporte no monitoramento global desses sistemas produtivos.

A proposta deve incluir métricas claras sobre o quanto cada sistema emite ou remove de gases da atmosfera. No caso dos bivalves, por exemplo, existe um potencial de remoção que precisa ser devidamente quantificado para que o produtor possa ser bonificado. A padronização permitirá que o Brasil reporte oficialmente esses números nos próximos inventários nacionais.

ARTICULAÇÃO INTERMINISTERIAL E MAPEAMENTO

A Embrapa Territorial já coordena, em parceria com o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), um levantamento nacional voltado ao mapeamento de tanques escavados no Brasil. Lucíola Magalhães, chefe de pesquisa na unidade, destaca que a iniciativa internacional fortalecerá a gestão do setor com indicadores consistentes. O avanço nas métricas cria uma base sólida para ações de transferência de tecnologia diretamente aos produtores.

A ideia é que, com dados precisos, o produtor possa adotar manejos que aumentem a eficiência e reduzam o impacto ambiental de forma comprovada. Isso abre caminho para certificações e novos canais de comercialização que valorizam a baixa pegada de carbono. A Assessoria de Relações Internacionais da Embrapa também coordena a elaboração das diretrizes para garantir que sigam rigorosamente os moldes exigidos pelo IPCC.

A última etapa da iniciativa prevê a realização de um workshop internacional no Brasil para a validação das propostas técnico-científicas antes da submissão definitiva ao corpo de especialistas do IPCC.