Nova patente utiliza luz para identificar solos endurecidos no campo
Publicado em 05/05/2026 11h11

Nova patente utiliza luz para identificar solos endurecidos no campo

UFC e Embrapa obtêm patente do Inpi para novo método de análise de solos coesos usando luz e ciclos de secagem, reduzindo custos e impacto ambiental.
Por: Redação

A Universidade Federal do Ceará (UFC) e a Embrapa Meio Ambiente alcançaram um marco tecnológico para a ciência do solo brasileira. O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) concedeu a patente de um método inédito para analisar solos com caráter coeso. A técnica utiliza a espectroscopia de reflectância associada a ciclos de umedecimento e secagem.

A inovação foi desenvolvida pela doutoranda Ana Maria Vieira da Silva, sob orientação do professor Raul Shiso Toma, da UFC. O projeto contou com a colaboração direta do pesquisador Luiz Eduardo Vicente, da Embrapa. A proposta altera a forma como pesquisadores e produtores compreendem a estrutura química e física de terrenos endurecidos.

Diferente das análises espectrais tradicionais, que utilizam amostras secas em estufa e peneiradas, o novo processo simula o comportamento natural do solo. Ao incluir ciclos sucessivos de água e secagem antes da leitura, a equipe consegue observar a agregação real das partículas. Isso gera dados muito mais representativos sobre a composição do recurso natural.

A espectroscopia de reflectância funciona por meio da interação da luz com o solo. A radiação eletromagnética é decomposta em bandas, permitindo identificar minerais e substâncias amorfas. Essas substâncias são as principais responsáveis pela gênese do caráter coeso. O método identifica e quantifica esses materiais com alta precisão e rapidez.

“A espectroscopia de reflectância é uma técnica consagrada e eficiente, mas seu uso para o estudo do caráter coeso do solo ainda é incipiente. Nosso trabalho abre espaço para novos modelos de previsão”, destaca Ana Maria Vieira.

Uma das maiores vantagens da nova patente é o caráter sustentável da operação. O método dispensa o uso de reagentes químicos agressivos, comuns em laboratórios tradicionais. Ao utilizar a luz como insumo principal, a tecnologia elimina a geração de resíduos laboratoriais tóxicos. Isso reduz custos operacionais e protege o meio ambiente.

De acordo com o pesquisador Luiz Vicente, a técnica agiliza diagnósticos que antes eram lentos e caros. Uma vez estabelecida uma base de dados robusta, a luz pode substituir grande parte das análises convencionais. O resultado é uma economia direta para agricultores e instituições de pesquisa. O trabalho exige apenas uma calibração rigorosa inicial.

Impacto nos tabuleiros costeiros

O caráter coeso é um atributo específico do Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (SiBCS). Ele identifica camadas subsuperficiais extremamente duras quando secas e firmes quando úmidas. Na prática, essas camadas funcionam como uma barreira para o desenvolvimento agrícola. Elas impedem a penetração das raízes e reduzem a entrada de água.

Esses solos são encontrados com frequência nos Tabuleiros Costeiros. Esta faixa geográfica se estende do Amapá ao Rio de Janeiro, possuindo enorme relevância econômica. A região concentra polos logísticos, portos estratégicos e grande produção mecanizada. No entanto, a coesão do solo limita severamente o rendimento das culturas locais.

O problema vai além da produtividade imediata das plantas. Solos coesos dificultam a circulação de oxigênio e a ciclagem de nutrientes essenciais. Eles também comprometem o sequestro de carbono orgânico, um fator fundamental nas políticas climáticas atuais. O novo método de análise permite entender melhor esses processos ambientais complexos.

“Estamos diante de uma contribuição que pode mudar a forma como avaliamos e manejamos solos com caráter coeso no Brasil. Isso impacta desde a pesquisa até o setor produtivo”, afirma Raul Toma.

Aplicações práticas e insumos

A tecnologia patenteada deve beneficiar inicialmente a comunidade científica em laboratórios. Contudo, o potencial para o campo é vasto e imediato. O método pode ser adaptado para uso em estufas, permitindo análises rápidas durante experimentos de manejo. Isso acelera a resposta do pesquisador às demandas reais do produtor.

Outro horizonte promissor é o desenvolvimento de novos insumos agrícolas comerciais. Produtos destinados a reduzir a resistência mecânica do solo, como biochars e hidrogéis, poderão ser testados com maior eficácia. O método espectral permite verificar rapidamente se o condicionador de solo está cumprindo sua função. Isso aumenta as chances de sucesso de novas tecnologias.

A união entre a UFC e a Embrapa Meio Ambiente solidifica a importância da cooperação institucional. O projeto recebeu apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A colaboração permitiu unir a expertise acadêmica com a experiência prática de uma empresa de pesquisa de excelência.

A pesquisa completa foi intitulada “Método para caracterização espectral de solo de horizonte com caráter coeso submetido a ciclos de umedecimento e secagem e extração de amorfos”. O Inpi já oficializou a concessão, garantindo a proteção da propriedade intelectual brasileira. A tecnologia agora segue para fases de validação em diferentes escalas de produção.