Indústrias suspendem abates com trava nas exportações para a China
Publicado em 30/06/2026 10h50

Indústrias suspendem abates com trava nas exportações para a China

Diante do teto iminente da cota de exportação para a China, frigoríficos brasileiros iniciam férias coletivas em julho para ajustar os abates.
Por: Wisley Torales

O encerramento precoce do teto de exportações de carne bovina para a China acendeu o sinal de alerta nas indústrias brasileiras. Com o volume limite de 1,1 milhão de toneladas sem tarifas adicionais prestes a se esgotar, frigoríficos organizam férias coletivas e reduções severas nos abates a partir de julho para conter o excedente de produção.

Empresas como Frigol, Better Beef, Iguatemi Beef e Plena Alimentos anunciaram paralisações temporárias. A expectativa do setor indica que os importadores asiáticos reativem as compras em larga escala apenas em outubro, período em que os novos embarques passam a contabilizar para o planejamento de 2027 devido ao tempo de trânsito marítimo.

O impacto das barreiras tarifárias

A mudança estrutural ocorreu no fim de 2025, quando Pequim estipulou limites de importação para parceiros comerciais, incluindo a Austrália e os Estados Unidos. Para o Brasil, a cota estabelecida ficou em 1,106 milhão de toneladas, patamar significativamente menor do que as 1,7 milhão de toneladas comercializadas no período anterior.

Alíquota punitiva: Dentro do limite anual fixado pela China, a tarifa é de 12%. Caso o volume ultrapasse o teto, a taxação sofre um acréscimo de 55%, elevando o imposto total para 67%, o que inviabiliza a operação comercial brasileira.

Dados emitidos em 23 de junho apontam que o Brasil preencheu 65,4% da cota até maio. O ritmo acelerado reflete a metodologia chinesa, que considera a data de desembarque nos portos locais, computando as cargas que foram remetidas ainda no final do ano anterior.

Estratégias regionais de sobrevivência

A Frigol determinou férias coletivas de 18 dias para mil colaboradores na unidade de Água Azul do Norte, no Pará. Segundo o CEO, Luciano Pascon, a planta destinava 70% das atividades ao mercado chinês. Nas demais filiais, a projeção é diminuir os abates em 20%. O retorno deve ocorrer sob uma operação reduzida entre 30% e 40%, pois o varejo interno não absorve esse volume imediatamente.

Em São Paulo, a Better Beef interromperá as atividades em Araçatuba entre 20 de julho e 10 de agosto. O gerente comercial Sandro Batista esclareceu que a planta de Rancharia, focada na China, passará a atender a demanda doméstica, Chile, Estados Unidos e Oriente Médio. O planejamento de crescimento de 10% para 2026 foi revisto para igualar o faturamento de R$ 3 bilhões anterior.

Faturamento revisado: A Better Beef previa crescer 10% em 2026, mas readequou as projeções operacionais para manter os R$ 3 bilhões faturados na temporada passada.

Em Mato Grosso do Sul, a Iguatemi Beef confirmou que 650 dos seus 850 funcionários entram em repouso remunerado em julho. O diretor de exportação, Douglas Domingues, explicou que a redução gerencia os custos operacionais em um cenário de preços elevados para o boi gordo. A empresa organizou estoques antecipados para abastecer clientes no Reino Unido e nos Estados Unidos.

A reação das gigantes do setor

O impacto varia conforme o tamanho das marcas. A Plena Alimentos vai aplicar 21 dias úteis de férias para 1,5 mil trabalhadores em Goiás e no Tocantins. Por outro lado, o Astra Foods, situado no Paraná, direcionará a carne retida para o varejo regional nos próximos três meses.

Líderes globais mitigam os danos por meio de triangulações internacionais. A Minerva Foods planeja utilizar suas estruturas localizadas na Argentina, Uruguai e Colômbia para continuar abastecendo a China, mantendo os abates nacionais focados nos norte-americanos. A JBS interrompeu as linhas de cortes específicos para os asiáticos desde o dia 20 de junho, mantendo sigilo sobre paralisações trabalhistas, enquanto BRF e Minerva não comentaram as decisões operacionais.