
O agronegócio brasileiro inicia o ciclo da safra 2026/2027 com recordes de financiamento, impulsionado por volumes expressivos de crédito empresarial. Essa abundância contrasta com uma fragilidade estrutural das últimas décadas: a baixa adesão aos mecanismos de proteção climática. O país demonstra competência para financiar a instalação das lavouras, mas falha em proteger a renda de quem produz quando o clima compromete os resultados.
Levantamentos indicam que a cobertura das apólices recuou para patamares complexos, atendendo menos de 4% do território agrícola ativo. Essa vulnerabilidade significa que estiagens, excesso de chuva, geadas ou granizo geram crise financeira com rapidez. A perda de produtividade desestabiliza o fluxo de caixa, provocando o atraso de parcelas, renegociações emergenciais e a redução do uso de tecnologias no ciclo seguinte.
O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), coordenado pelo governo federal, GMT atua como indutor da mitigação de riscos. O mecanismo paga uma parcela do custo da apólice, permitindo ao agricultor contratar proteções por valores compatíveis com as margens da atividade. A expansão dessa ferramenta reduz o endividamento crônico e desonera o governo de conceder socorros de última hora.
Encolhimento orçamentário: Os recursos executados pelo Ministério da Agricultura atingiram o pico de R$ 1,15 bilhão na temporada de 2021, despencando para R$ 565,3 milhões no fechamento de 2025.
A flutuação nas dotações orçamentárias interrompeu o avanço do programa, provocando retrocesso. Em 2021, o PSR viabilizou 217,9 mil apólices, protegendo 14 milhões de hectares. Em 2025, o balanço indicou queda para 61,6 mil apólices e 3,2 milhões de hectares cobertos, o pior desempenho registrado na última década.
Estimativas formuladas pela FGV-Agro sinalizam um cenário restritivo para 2026. As projeções apontam para um recuo na área segurada, que deve ficar próxima a 2,7 milhões de hectares, o que representa menos de 3% da área total cultivada no país. O teto orçamentário reservado para este ano ficou em R$ 1,01 bilhão, porém entidades apontam que a necessidade real seria próxima de R$ 4 bilhões.
Essa retração estabelece um descompasso econômico direto com os rumos do Plano Safra 2026/2027, estruturado com aporte de R$ 525,1 bilhões para o segmento empresarial. A engenharia do plano direciona R$ 384,9 bilhões para custeio e comercialização, restando R$ 140,2 bilhões para investimentos de longo prazo. Conceder volumes altos de crédito sem salvaguardas securitárias eleva a exposição de toda a engrenagem.
A ausência de apólices vigentes pulveriza os prejuízos climáticos por todos os elos da cadeia de suprimentos. O produtor absorve o impacto imediato da perda, mas a inadimplência alcança as cooperativas, as revendas de insumos e as instituições bancárias. O estrago se extende às empresas cerealistas, tradings de exportação e afeta diretamente a arrecadação tributária de municípios dependentes da colheita.
Relatório do Climate Policy Initiative revela as dificuldades de execução em 2025, evidenciando que, dos valores previstos para o PSR, cerca de R$ 445 milhões sofreram contingenciamento por parte da área econômica, montante que paralisou 42% do fundo. Os cortes sucessivos provocam o encolhimento na oferta de produtos especializados por parte das seguradoras, que reduzem suas carteiras rurais.
Subsidiar a contratação preventiva das apólices gera um gasto menor do que o financiamento de pacotes de socorro pós-desastre. Sem o amparo do mercado segurador internacional, as quebras geram pressões por moratórias, prorrogações de dívidas e equalizações de juros que oneram o Tesouro Nacional. O Ministério da Agricultura mantém conversas com a equipe econômica para tentar garantir o fluxo do PSR no segundo semestre de 2026.