
A sucessão familiar em pequenas propriedades rurais costuma apresentar desafios operacionais, principalmente quando os herdeiros não possuem experiência prévia no manejo da terra. No município de Vicentina, localizado na região sul de Mato Grosso do Sul, essa transição quase resultou na liquidação de um patrimônio familiar, cenário modificado pela introdução de assistência técnica especializada e diversificação de culturas.
O sítio, herdado por Rafael Faria Corrêa e sua esposa em 2017 após o falecimento do sogro, encontrava-se em uma região onde a fruticultura comercial não figurava como atividade principal. Sem familiaridade com o ecossistema agrícola, a intenção inicial de Rafael era alienar a propriedade, esbarrando no forte apelo emocional de sua cônjuge, criada naquelas terras.
Essa é a história do Transformando Vidas de hoje, confira:
A virada na gestão do negócio ocorreu em 2022, impulsionada por uma sugestão de Valter Gomes da Silva, tio da esposa e atual sócio do empreendimento. Silva propôs o cultivo de bananas e intermediou o contato com o programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) em Fruticultura, mantido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/MS).
Superação de gargalos climáticos: O planejamento estratégico estruturado pelos técnicos permitiu que a lavoura resistisse a períodos de estiagem severa logo no primeiro ciclo, consolidando uma colheita inicial produtiva que validou a viabilidade financeira da cultura.
A transição para o modelo tecnológico exigiu a reestruturação dos processos antigos de manejo que a família conhecia de forma rudimentar. Sob a orientação do técnico de campo do Senar/MS, Márcio Antônio Maria, os sócios implantaram um sistema integrado de irrigação por microaspersão e cronogramas de adubação baseados em análises periódicas de solo.
Essas correções técnicas permitiram o controle eficiente de fitossanidades comuns ao bananal, garantindo a padronização das frutas de acordo com as exigências do mercado consumidor urbano. Atualmente, o projeto atinge o seu quarto ano de colheita contínua, exibindo indicadores de produtividade que superam a média das pequenas propriedades locais.
Os resultados práticos consolidaram a segurança necessária para a ampliação da área cultivada e a sofisticação dos canais de comercialização. O bananal, que inicialmente gerava lotes comerciais modestos, hoje sustenta uma base de produção estruturada de alta escala, preparando a fazenda para novos investimentos em logística.
Evolução dos volumes: O sítio registra atualmente uma colheita regular de 10 toneladas por ciclo, com projeções oficiais de fechamento que variam entre 80 e 120 toneladas para o encerramento da temporada atual, puxadas pela eficiência fitossanitária.
O incremento nos volumes colhidos abriu espaço para a introdução de uma segunda cultura comercial na propriedade. Os produtores optaram pelo plantio de batata-doce, aproveitando a estrutura de insumos existente e a janela de rotação de áreas, diversificando os riscos de mercado e otimizando a receita por hectare ao longo do ano.
A consolidação do padrão de qualidade da batata-doce e da banana motivou a equipe da ATeG a direcionar o perfil empreendedor de Rafael para o comércio exterior. O produtor foi integrado ao programa AgroBR, uma iniciativa voltada para a capacitação de pequenos e médios empresários rurais interessados em acessar redes internacionais de distribuição.
O processo de preparação encontra-se na segunda fase de execução, englobando o desenvolvimento de planos de ação estratégicos, auditorias para obtenção de certificações internacionais e simulações para rodadas de negócios. O foco geográfico está concentrado no atendimento de demandas de países da América do Sul.
Os países vizinhos, como o Paraguai e a Argentina, representam mercados consolidados com alto índice de consumo para esses produtos agrícolas brasileiros. A viabilidade logística desse fluxo comercial recebe o suporte da infraestrutura da Rota Bioceânica, corredor rodoviário em construção que interliga os portos do Atlântico aos terminais do Pacífico, cruzando o território sul-mato-grossense.
A proximidade com as aduanas internacionais reduz o custo do frete rodoviário, conferindo competitividade ao produto de Vicentina frente aos concorrentes continentais. O planejamento dos sócios prevê a participação nas primeiras rodadas formais de negócios internacionais entre o final deste ano e o primeiro semestre do próximo ciclo.