Argentina reduz safra de trigo em 25% e mexe com o mercado nacional
Publicado em 13/07/2026 07h15

Argentina reduz safra de trigo em 25% e mexe com o mercado nacional

Em julho de 2026, o relatório do Itaú BBA apontou que o USDA cortou a safra nacional de trigo para 6,7 milhões de toneladas, elevando as importações.
Por: Wisley Torales

O desenho estatístico para a triticultura brasileira no ciclo 2026/2027 passou por revisões técnicas que alertam os moinhos nacionais para a necessidade de maior captação externa. Os dados do relatório Radar Agro, consolidado pela Consultoria Agro do Itaú BBA a partir das atualizações de julho do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), expõem um estreitamento na oferta do cereal dentro do país. As estimativas indicam que a produção brasileira de trigo deve recuar para 6,7 milhões de toneladas na nova temporada, representando uma retração de 15% na comparação direta com o volume de 7,9 milhões de toneladas obtido no ciclo 2025/2026.

Essa diminuição da colheita doméstica ocorre em decorrência de um encolhimento na área cultivada, que passou de 2,4 milhões para 2,3 milhões de hectares, associado a uma produtividade média calculada em 2,9 toneladas por hectare. Com a demanda dos moinhos estabilizada em 12,5 milhões de toneladas para atender o consumo doméstico de farinhas, a diferença entre a produção e o consumo exigirá uma atuação agressiva dos importadores portuários. O USDA projeta que o Brasil precisará adquirir 7,2 milhões de toneladas de trigo no mercado internacional, registrando uma expansão de 12,5% frente ao volume comprado na temporada de 2024/2025.

Gargalo no suprimento interno: A quebra de 15% na produção nacional de trigo forçará as indústrias de panificação a elevarem as importações para 7,2 milhões de toneladas na temporada 2026/2027.

A redução na disponibilidade de matéria-prima local eleva os custos operacionais das indústrias de panificação e massas, que passam a depender do fluxo logístico marítimo. Com estoques de passagem pressionados, as cooperativas tentam coordenar os recebimentos nos terminais graneleiros para evitar sobretaxas decorrentes do tempo de espera dos navios.

Quebra na Argentina altera fluxo no Mercosul

A dependência brasileira de grãos estrangeiros encontra um cenário de restrição justamente no seu principal fornecedor regional, o que deve encarecer o custo de aquisição do produto ao longo do ano. A Argentina enfrentou juices severos em suas planilhas operacionais devido a adversidades climáticas nas províncias do sul, gerando revisões baixistas que impactam diretamente o fluxo comercial do Mercosul. A safra argentina de trigo para 2026/2027 está estimada em 21,0 milhões de toneladas, exibindo uma queda expressiva de 25% na comparação com as 27,9 milhões de toneladas colhidas na safra passada.

Com menos excedente disponível nos silos, as tradings argentinas reduziram o potencial de embarques para os portos vizinhos, fixando a projeção de exportações em 15,0 milhões de toneladas para o ciclo atual. Esse encolhimento da oferta regional pressionará as margens das indústrias moageiras do Brasil, que precisarão buscar lotes complementares em origens mais distantes ou arcar com prêmios mais altos para garantir o abastecimento das padronagens de farinha antes da entrada da próxima safra.

Aperto nos estoques mundiais e tendência de Chicago

No ambiente global, as variáveis macroeconômicas apontam para um desequilíbrio motivado pela aceleração do consumo em grandes polos populacionais, como a Índia. O USDA revisou a demanda mundial de trigo para cima, estimando o consumo global em 821,0 milhões de toneladas na temporada 2026/2027. Como a produção mundial está projetada em um patamar inferior, somando 820,0 milhões de toneladas, as reservas globais de passagem passarão por uma liquidação paulatina. Os estoques finais de trigo no mundo foram cortados para 273,0 milhões de toneladas, um recuo de 2% frente ao período anterior.

Consumo supera a produção: A demanda global por trigo atingirá 821 milhões de toneladas, superando a colheita mundial de 820 milhões de toneladas e forçando o uso dos estoques.

Os Estados Unidos registraram um recuo em suas estimativas, com a colheita ajustada para 41,8 milhões de toneladas, o que derrubou os estoques finais americanos para 19,7 milhões de toneladas. O contraponto veio da Rússia, que teve sua produção revisada para cima, atingindo 88,5 milhões de toneladas após melhoras no rendimento das lavouras de inverno. Esse arranjo de estoques mundiais mais deprimidos sustenta uma tendência de valorização contínua na Bolsa de Chicago (CBOT), com os contratos futuros projetando uma escalada progressiva que parte de 6,40 dólares por bushel em setembro de 2026 até atingir o teto de 7,00 dólares por bushel em dezembro de 2027.