
O início do período de estiagem no Centro-Oeste exige dos pecuaristas uma reorganização das rotinas de manejo nutricional para garantir a sustentabilidade econômica das propriedades. A redução no volume de chuvas associada à queda nas temperaturas altera diretamente a fisiologia das pastagens, interrompendo o seu crescimento. Esse fenômeno diminui tanto a oferta de capim quanto o teor de nutrientes disponíveis para o rebanho.
Para discutir soluções de enfrentamento a esse período desafiador, o Senar/MS reuniu especialistas em uma transmissão técnica focada no planejamento de longo prazo. O supervisor de campo do programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) em Bovinocultura de Corte, Andrei Pereira Neves, detalhou as ferramentas capazes de blindar a produção de carne e leite. Neves destaca que a seca é um evento previsível e deve constar no planejamento anual das fazendas.
Planejamento contra a sazonalidade: "A seca não é novidade. Todos os anos ela chega e, por isso, a palavra que o produtor precisa ter em mente é planejamento. Quem se prepara consegue atravessar esse período mantendo a produção e reduzindo impactos econômicos negativos", adverte Andrei Neves.
O principal obstáculo nutricional durante a estiagem reside na perda de qualidade da forragem, que se torna fibrosa e de difícil digestão. À medida que a planta seca, os teores de proteína bruta caem para níveis inferiores a 8%, o que prejudica a atividade dos microrganismos que habitam o rúmen dos animais. Sem o aporte adequado desse elemento, as bactérias ruminais perdem eficiência na degradação da fibra, fazendo com que o gado reduza o consumo voluntário e passe a perder peso.
Essa perda de peso tem impacto severo nos índices reprodutivos e no crescimento das categorias mais jovens, gerando prejuízos que atrasam todo o ciclo produtivo. Neves explica que, no período seco, o suplemento mineral tradicional torna-se insuficiente, pois não oferece os compostos nitrogenados necessários para ativar o ecossistema microbiano do estômago dos ruminantes.
O papel da proteína no rúmen: O especialista esclarece que o real problema da estiagem não é a ausência de capim em si, mas a falta de proteína necessária para manter a atividade microbiana estável e garantir o aproveitamento da palhada.
A correção desse déficit exige o fornecimento de fontes de nitrogênio não proteico, como a ureia, associadas a farelos em suplementos específicos. O mercado oferece formulações prontas, como sal com ureia e proteicos-energéticos, além de concentrados desenvolvidos para mistura nas fazendas com grãos e farelos. A escolha do produto adequado deve considerar a categoria animal e o objetivo de ganho de peso estabelecido.
Paralelamente, a formação de reservas volumosas de inverno atua como um pilar de segurança. Entre as opções mais comuns estão o diferimento de pastagens durante o outono, a produção de silagem de milho, sorgo ou milheto, e a implantação de capineiras de alta produtividade. O volumoso conservado garante o suporte físico para o rebanho quando os pastos se esgotam.
Outro fator determinante para o sucesso da estratégia é a divisão e setorização dos lotes dentro da propriedade. Misturar animais com exigências nutricionais distintas, como vacas em lactação, novilhas em crescimento e bois em terminação, reduz a eficiência do uso dos insumos. O ajuste da taxa de lotação dos pastos deve acompanhar o declínio da produção de massa verde para evitar a degradação da pastagem.
Adquirir feno e ração de forma emergencial quando a seca já se estabeleceu eleva substancialmente os custos operacionais, pois a alta procura inflaciona os preços. A antecipação das compras e a preparação das áreas de pasto vedado evitam essa dependência do mercado spot. As discussões completas do Senar/MS sobre o manejo nutricional seguem disponíveis na transmissão do Senar On no YouTube https://youtube.com/live/Rn52X4dpP_M