
O comportamento do mercado de lácteos brasileiro no início de 2026 apresenta um cenário de polarização regional, expondo realidades produtivas distantes. Enquanto a maior parte das bacias leiteiras celebra marcas históricas de captação, Mato Grosso caminha em sentido oposto, registrando o desempenho mais baixo das últimas duas décadas.
Segundo a Pesquisa Trimestral do Leite, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a captação nacional atingiu 6,78 bilhões de litros no primeiro trimestre de 2026. O montante representa o maior volume já catalogado para este intervalo na série histórica da pesquisa, consolidando a recuperação da atividade em nível federal.
A liderança desse crescimento concentrou-se na Região Sul, principal polo de fornecimento de matéria-prima para as indústrias. Os laticínios dos três estados meridionais ampliaram o volume captado em 7,45% em comparação com o primeiro trimestre de 2025, respondendo por 41,17% de toda a produção brasileira.
Além do avanço consolidado no Sul, o estado de Minas Gerais manteve sua hegemonia como o principal produtor do país. Os pecuaristas mineiros entregaram 1,67 bilhão de litros de leite no período, garantindo uma variação positiva de 1,62% em relação ao volume medido no mesmo trimestre do ano anterior.
Esse panorama de fartura no Centro-Sul acentua a crise estrutural enfrentada pelas propriedades leiteiras de Mato Grosso. O estado, reconhecido pela liderança nos grãos e na pecuária de corte, encontra sérias dificuldades para manter a atratividade econômica de sua cadeia de leite.
De acordo com o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária, a captação local desabou para 86,74 milhões de litros no trimestre. A retração representa uma perda de 14,82% em relação ao ano anterior, posicionando o resultado como o pior desempenho para o período desde o ano de 2006.
Encolhimento histórico da atividade: Mato Grosso registrou a menor captação de leite para um primeiro trimestre em vinte anos, consolidando a perda de dinamismo de sua bacia em meio ao avanço de custos operacionais.
As razões por trás desse encolhimento severo envolvem fatores operacionais que minaram a rentabilidade do produtor. A saída estratégica de uma indústria de grande porte que processava lácteos na região Oeste do estado desestruturou as rotas de coleta e deixou fornecedores sem canais de entrega.
Sem compradores com capacidade de escala para absorver a produção diária, muitos pecuaristas suspenderam as atividades. A logística de transporte no estado, caracterizada por longas distâncias terrestres, encarece o frete e diminui o valor líquido recebido pelo produtor no momento do pagamento do litro.
A pressão financeira é potencializada pela escalada dos custos de produção, especialmente os gastos relacionados à nutrição animal. O estreitamento das margens de lucro inviabilizou a permanência de pequenas propriedades na atividade, acelerando a migração de produtores para a pecuária de corte.
A manutenção de pastagens produtivas demanda investimentos constantes que o preço pago ao produtor não consegue cobrir. O êxodo de produtores da atividade leiteira enfraquece as cooperativas locais, dificultando a atração de novas indústrias interessadas em reativar plantas desativadas.
As indústrias remanescentes operam com capacidade ociosa elevada, o que encarece o custo unitário de processamento. O mercado estadual passa a depender crescentemente do envio de produtos vindos de Goiás e de estados do Sul para suprir a demanda dos supermercados locais.