Grão ganha espaço como garantia do crédito rural
Publicado em 28/07/2026 02h00

Grão ganha espaço como garantia do crédito rural

O aperto também atingiu as revendas.
Por: Leonardo Gottems

O financiamento da safra brasileira depende de contratos em que insumos são pagos com a produção futura, sem circulação imediata de dinheiro. Segundo análise do consultor em capital transfronteiriço Drew Crawford, da Austral Continental, esse modelo responde por parcela relevante do crédito de insumos no Centro-Oeste e no MATOPIBA

Nas operações de barter, a relação de troca é definida em sacas por tonelada de fertilizante, enquanto tradings, cooperativas e fornecedores antecipam produtos e recebem grãos na colheita. A lógica se apoia na liquidez da soja e do milho, precificados em dólar e sob controle logístico dos credores, o que torna o grão uma garantia mais direta do que a terra.

A Cédula de Produto Rural sustenta grande parte desse mercado. O estoque em circulação chegou a R$ 565,15 bilhões em maio, acima da carteira agrícola de R$ 418,4 bilhões do Banco do Brasil no primeiro trimestre, embora os dados não sejam diretamente comparáveis. O avanço ocorreu enquanto o crédito oficial perdeu força e a inadimplência rural subiu.

O aperto também atingiu as revendas, que financiam produtores com recursos de fornecedores, bancos e mercado de capitais. Recuperações e renegociações expuseram o risco dessa intermediação, com dívidas bilionárias, prazos longos e perdas transferidas para indústrias de insumos e investidores.

Apesar das quebras, a garantia física continuou funcionando. O ponto de tensão passou a ser a execução dos contratos, diante do aumento das recuperações judiciais e de propostas para suspender cobranças e recalcular dívidas. A Medida Provisória 1.376 restringiu o alcance dessas mudanças e deixou fora do programa parte das CPRs ligadas a fornecedores, cooperativas e tradings. Para o crédito agrícola em dólar, a previsibilidade jurídica tornou-se crucial.