
Nas lavouras das Matas de Minas, o período de maturação dos cafezais atrai uma das espécies mais emblemáticas da avifauna da Mata Atlântica: o jacu. Historicamente enxergado por pequenos e médios cafeicultores como uma ameaça agrícola devido ao consumo acelerado dos frutos maduros, o pássaro tornou-se o centro de um modelo de negócios de altíssimo valor agregado no mercado de cafés especiais.
A ave possui um hábito alimentar seletivo, alimentando-se exclusivamente dos cerejas que atingem o ponto ideal de açúcar e maturação. Durante o processo digestivo, o trato gastrointestinal do jacu absorve a polpa e a casca do fruto, mantendo a estrutura do grão de café intacta. A exposição às enzimas digestivas e o tempo de permanência no organismo do animal promovem uma fermentação natural, modificando as propriedades sensoriais da matéria-prima.
Valorização no mercado de luxo: A bebida produzida a partir dos grãos colhidos nas fezes do jacu alcança a marca de R$ 1.500 por quilo no mercado gourmet de cafés especiais.
O processo produtivo exige rigor sanitário e agilidade no campo. De acordo com o supervisor do programa Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) Café+Forte, Daniel Prado, a janela de tempo entre a eliminação dos grãos pela ave e a recolha na lavoura determina a qualidade final do lote. A permanência prolongada do material orgânico no solo sob umidade elevada favorece a proliferação de fungos filamentosos, o que compromete o perfil sensorial da bebida.
Após a varrição e coleta manual sob a copa das árvores e arbustos da propriedade, os grãos passam por etapas sucessivas de higienização em água corrente, secagem controlada em terreiros suspensos, beneficiamento mecânico e torra artesanal. O resultado na xícara traduz-se em uma bebida de baixíssima acidez e ausência de amargor, destacando notas aromáticas florais, frutadas e adocicadas.
No município de Araponga, na região das Matas de Minas, a cafeicultora Kátia Martins transformou a presença do animal na propriedade em uma oportunidade comercial. Apostando na iguaria há três anos, a produtora adaptou o manejo da chácara para conviver com a fauna silvestre, atingindo uma produção média anual de 30 quilos do produto beneficiado.
Agilidade no manejo: A varrição imediata após a eliminação das fezes previne a contaminação por fungos e preserva a integridade sensorial do grão.
A consolidação desse mercado exclusivo motivou a criação de uma rede comunitária de coleta em Araponga. Para viabilizar a varrição diária nas áreas montanhosas e garantir o volume necessário para a comercialização, Kátia Martins estruturou uma parceria com dez mulheres moradoras da zona rural circundante.
A iniciativa funciona como uma associação informal de trabalho justo, na qual as catadoras recolhem os grãos nas áreas de mata e lavoura e os fornecem diretamente para o beneficiamento na propriedade principal. O modelo garante renda complementar e autonomia financeira para as trabalhadoras rurais da região, inserindo o trabalho feminino em um nicho de mercado de alta rentabilidade.
O acompanhamento técnico da ATeG orienta as produtoras no monitoramento constante da umidade dos lotes durante a secagem, etapa em que o grão precisa atingir entre 11% e 12% de umidade para seguir ao armazenamento e torrefação. O monitoramento contínuo evita defeitos como a fermentação indesejada ou o mofo na armazenagem.
A manutenção das matas nativas preservadas ao redor dos talhões de café garante a permanência contínua do jacu na região, consolidando a integração entre a preservação ambiental da Mata Atlântica e a cafeicultura de montanha.