
Receptoras nelore (barrigas de aluguel), a campo no Pantanal. Foto Wisley Torales / Agroin Comunicação
A integração entre biotecnologias reprodutivas e ferramentas de análise genômica consolidou o Brasil entre os maiores polos de inovação da pecuária mundial. Relatório publicado pela Sociedade Internacional de Tecnologia de Embriões (IETS, na sigla em inglês) revela que os laboratórios nacionais produziram 493.989 embriões bovinos in vitro ao longo de 2024. O volume alçou o país à segunda posição no ranking global do segmento, atestando o avanço na modernização dos plantéis.
O resultado expressivo reflete o interesse dos pecuaristas em tecnologias capazes de multiplicar matrizes e reprodutores de alto valor genético em curto espaço de tempo. A produção in vitro de embriões (PIV), associada ao acasalamento direcionado, acelera a difusão de características de alta produtividade quando comparada aos métodos tradicionais de reprodução.
A aplicação dessas técnicas atende à necessidade de elevar a oferta de proteína animal diante do crescimento da demanda global. A seleção de animais mais eficientes otimiza o aproveitamento dos insumos e das pastagens, permitindo ganhos de escala sem a exigência de expansão territorial das propriedades.
Liderança em biotecnologia: Com a marca de 493,9 mil embriões bovinos produzidos in vitro em 2024, o Brasil garantiu a vice-liderança mundial no setor de reprodução assistida.
A gerente de Desenvolvimento de Mercado para o Agronegócio da Loccus, Tatiani Janegitz, observa que a biotecnologia oferece suporte direto ao planejamento estratégico das fazendas. A empresa brasileira especializou-se na entrega de soluções para diagnóstico molecular voltadas ao campo.
"Rebanhos geneticamente superiores apresentam melhor desempenho, maior eficiência alimentar, melhor qualidade da carne e do leite e maior resistência a doenças. Isso reduz perdas, otimiza o uso dos recursos naturais e permite que o pecurista obtenha melhores resultados sem necessariamente expandir a área de produção", aponta Janegitz.
O progresso da bovinocultura ganha velocidade adicional com a incorporação de marcadores moleculares, técnica que identifica sequências específicas no DNA dos animais ainda no início do desenvolvimento embrionário ou nos primeiros dias de vida. A análise genômica permite mapear o potencial produtivo e reprodutivo antes que o indivíduo manifeste visivelmente essas características no pasto.
A leitura do código genético antecipa a tomada de decisão sobre o descarte ou a multiplicação de determinado animal. A ferramenta mapeia a predisposição para atributos como fertilidade, ganho de peso diário, facilidade de parto, marmoreio da carne, produção láctea e tolerância a enfermidades comuns nos sistemas tropicais.
"Os marcadores moleculares representam um avanço importante porque revelam características que dificilmente seriam identificadas apenas pela avaliação fenotípica. Com isso, a seleção se torna mais segura, reduz incertezas e acelera os ganhos genéticos ao longo das gerações", explica a especialista da Loccus.
Antecipação genômica: O mapeamento direto no DNA identifica atributos de produtividade antes da manifestação física no animal, reduzindo custos de recria desnecessários.
A combinação entre a PIV e o diagnóstico molecular eleva a previsibilidade dos programas de melhoramento. A identificação dos melhores embriões antes da transferência para as fêmeas receptoras evita gastos com a gestação e a recria de indivíduos com baixo mérito genético, direcionando os recursos financeiros para os animais com retorno comprovado.
A evolução da genética de precisão gera impactos positivos que ultrapassam as divisas dos estabelecimentos rurais. O avanço da demanda por análises laboratoriais e insumos de biotecnologia estimula uma extensa rede de fornecedores, universidades, centros de pesquisa e centrais de coleta e processamento de sêmen e embriões.
A cadeia produtiva passa a exigir profissionais altamente qualificados, como médicos veterinários especializados em biotécnicas reprodutivas, geneticistas e biólogos moleculares. A integração entre a pesquisa científica realizada nas instituições de ensino e o mercado corporativo impulsiona o desenvolvimento de soluções nacionais adaptadas aos desafios da pecuária tropical.
"Enquanto a produção in vitro acelera a multiplicação de animais superiores, a genética molecular torna a seleção mais precisa. A combinação dessas tecnologias permite avanços consistentes em produtividade, sustentabilidade e rentabilidade para toda a cadeia pecuária", avalia Tatiani Janegitz.
A ampliação do uso dessas plataformas biológicas consolida a indústria nacional de diagnósticos e fomenta o surgimento de novos laboratórios regionais. O fortalecimento do setor atrai investimentos privados em infraestrutura de pesquisa e amplia a oferta de serviços tecnológicos no interior do país, sustentando a expansão da pecuária nacional nos próximos anos.