Juros altos ou dívida: o que realmente quebra o produtor?
Publicado em 31/08/2026 02h00

Juros altos ou dívida: o que realmente quebra o produtor?

O exercício considera preços e custos históricos por saca.
Por: Leonardo Gottems

O nível de endividamento e a forma como o lucro é utilizado podem pesar mais na sobrevivência financeira do produtor rural do que uma trajetória de juros mais baixos. A avaliação é de Thiago Gil, especialista em finanças agrícolas, a partir de uma simulação com produtores de soja de Mato Grosso entre as safras 2021/22 e 2026/27.

O exercício considera preços e custos históricos por saca, diferenças de produtividade, choques anuais, sete níveis iniciais de dívida, pagamento de juros, amortização e refinanciamento. Também compara três políticas para o lucro, desde a distribuição integral aos acionistas até sua destinação total para redução das dívidas.

Na simulação, uma Selic convergindo gradualmente para 8% ao ano elevaria a sobrevivência dos produtores em não mais que 2 pontos percentuais. Com a trajetória observada dos juros, 57% sobreviveriam até o fim do período caso todo o lucro fosse distribuído. O índice sobe para 64% com metade do resultado destinada à dívida e chega a 68% quando todo o lucro é usado para desalavancagem.

Com a Selic convergindo para 8%, os percentuais seriam de 58%, 65% e 69%, respectivamente. Segundo a análise, o endividamento inicial e a política de retenção dos lucros apresentam impacto mais relevante que a redução dos juros. No cenário de divisão igual entre distribuição e desalavancagem, os sobreviventes chegariam a 2026/27 próximos de uma redução quase total das dívidas.

“Ou seja, se a política de desalavancagem fosse adotada por todos, o risco sistêmico do agronegócio poderia ser brutalmente reduzido. A bola de neve poderia estar muito menor, abrindo espaço para uma melhor interlocução no âmbito do Plano Safra e do Seguro Rural.