Santa Catarina perde China e Arábia Saudita após foco de Newcastle
Publicado em 23/10/2026 11h17

Santa Catarina perde China e Arábia Saudita após foco de Newcastle

A confirmação de Newcastle em SC atinge exportações do Estado, mas a regionalização adotada pela China limita o impacto no Brasil.
Por: Wisley Torales

Foto Pixabay

A avicultura brasileira enfrenta um novo teste com a confirmação de um foco da doença de Newcastle em uma granja comercial de perus de corte no município de Nova Itaberaba, no Oeste de Santa Catarina. O diagnóstico foi realizado por meio do sistema de vigilância ativa do Ministério da Agricultura e Pecuária, identificando o vírus em aves assintomáticas e sem registro de mortalidade no lote. As autoridades sanitárias decretaram emergência zoossanitária por 60 dias em quatro municípios da região e aplicaram o protocolo de interdição, sacrifício dos animais e desinfecção da propriedade.

Apesar do alerta sanitário, a resposta dos principais compradores internacionais diferiu de episódios anteriores. A China adotou imediatamente a regionalização das restrições comerciais, restringindo a suspensão das importações apenas aos estabelecimentos localizados em território catarinense. O critério de bloqueio localizado foi acompanhado por Arábia Saudita e Chile, preservando o fluxo de embarques das plantas industriais situadas nos demais estados produtores.

Em contrapartida, mercados como México e Malásia optaram por embargos de alcance nacional, suspendendo temporariamente as compras de carne de aves, miúdos e material genético provenientes de todo o país. O México representava o sétimo maior comprador da avicultura brasileira no acumulado do ano, somando mais de 170 mil toneladas importadas.

Regionalização ágil: A decisão da China de restringir os bloqueios a Santa Catarina preserva as exportações dos demais estados brasileiros.

Concentração das exportações e vulnerabilidade catarinense

A aplicação das restrições comerciais gera impacto desproporcional sobre a estrutura agroindustrial de Santa Catarina. Embora o estado ocupe o segundo lugar na produção nacional de carne de frango, respondendo por 13,4% do volume total produzido no país, sua participação nas vendas ao exterior atinge 22,5% em volume e 25% no faturamento bruto das exportações brasileiras.

A elevada dependência do comércio internacional expõe o parque produtivo catarinense, que direciona cerca de 63% de sua produção ao mercado externo. A perda simultânea do acesso à China e à Arábia Saudita retira do estado dois dos seus principais compradores de carne de frango, miúdos e cortes inteiros.

De acordo com análises da Consultoria Agro do Itaú BBA, o principal desafio econômico para a indústria local não reside no controle sanitário do foco, mas sim no tempo necessário para a reabertura formal dos canais de comercialização com os parceiros asiáticos e do Oriente Médio.

Exposição ao mercado externo: Santa Catarina exporta 63% do que produz, concentrando um quarto de toda a receita do frango brasileiro no exterior.

Reorganização logística e projeções para o setor

A experiência acumulada em episódios anteriores demonstra que a normalização das relações comerciais costuma demandar prazos mais longos do que a resolução dos protocolos sanitários junto à Organização Mundial de Saúde Animal. Durante ocorrências passadas no Rio Grande do Sul, o processo de reabertura do mercado chinês exigiu meses de negociações diplomáticas e auditorias técnicas.

Processadoras e cooperativas com unidades operacionais distribuídas pelo Paraná e pelo Rio Grande do Sul possuem maior capacidade de adaptação, redirecionando o cumprimento de contratos para plantas situadas fora da área restrita. O Paraná, maior produtor e exportador do país, responde por quase 39% dos embarques nacionais e atua como amortecedor para a manutenção do volume exportado pelo Brasil.

As empresas concentradas exclusivamente no território catarinense enfrentam aumento de custos operacionais decorrentes da necessidade de estocagem de produtos em câmaras frias e renegociação de prazos.

O Ministério da Agricultura e Pecuária mantém tratativas diplomáticas com os governos importadores para avançar no reconhecimento da regionalização sanitária e agilizar a retomada das habilitações do estado.